NY é uma pechincha

Sempre ouvi falar que Nova York era uma das cidades mais caras do mundo. Pelo visto, as coisas mudaram. Sim, o aluguel aqui continua uma fortuna. Sim, tem restaurantes em que seu estômago, olhos e coração juntos não seriam suficientes para pagar a conta. Mas em que lugar do mundo você anda de ponta a ponta, de metrô, sem precisar de preocupar com a violência ou com o estacionamento, pagando apenas $ 104,00 por mês? Pode andar à vontade, passar o dia roncando num trem meio sujinho, mas com ar condicionado. O valor não muda! Não é à toa que tem até música declarando amores pelo Metrocard…

Eu já vinha sentindo a diferença, mas achei que fosse por causa dos incríveis sites de deals que andei descobrindo. Leila e Andres, um casal de amigos daqui (ela iraniana, ele colombiano), conhecem como poucos esses grandes negócios e me passaram várias dicas. Audience Extras, Pulsd (esse foi dica da Ju Dorna), Bloomspot, Groupon. Em todos eles você encontra serviços e produtos a preços baixos.

Fora tudo isso, Nova York saltou da 8a, em 2009, para a 27a cidade mais cara do mundo! Olha que maravilha! Paris, Londres, São Paulo, Hong Kong, Milão, Tel Aviv. Todas são mais salgadas que a grande maçã. O Rio ficou só duas posições abaixo! Para quem está curioso, a cidade mais cara deixou de ser Tóquio, que agora responde pela vice-liderança. Luanda, capital da Angola, está lá na frente. E não tem Metrocard.

Bolo

Algumas entrevistas são ótimas. Outras não rendem nada. E isso nem sempre depende de você. Às vezes o entrevistado está num mau dia, sem paciência. Recentemente gravamos para o Multishow uma entrevista com os integrantes da banda Cake (clique aqui para ver no site do Multishow). Eu sempre gostei muito deles. Conheci o John na última vez em que foram ao Rio. Ele se apaixonou pelo piso da cozinha, de autoria do artista plástico Francisco Brennand, do Recife, e a gente chegou a combinar o envio do piso para ele, na Califónia. Como bons brasileiros, nunca mandamos.

Mais ou menos uns cinco anos depois desse primeiro encontro, marcamos a entrevista, aqui em Nova York. Chegando lá, John cobrou o envio do piso, falou da ansiedade de voltar ao Brasil e contou novidades. Sempre achei uma temeridade o jornalista ficar “amigo” do entrevistado e, claro, não fiquei amiga do John. Foram só mesmo esses dois encontros. Mas o último foi especial porque me mostrou como esse distanciamento é importante e não atrapalha em nada o ofício do jornalista. Pelo contrário. Foi uma conversa relaxada, em que deu tempo de falar de música, meio ambiente, amigos, Brasil. Eles dividiram suas ansiedades, as dificuldades de manter uma banda por tanto tempo e acho, honestamente, que se estivessem gravando com um amigo, o papo não renderia tanto.

Uma vez Chico comparou o jornalista a um terapeuta. Ambos ficam ali, parados, perguntando e ouvindo as angústias do interlocutor. Já viu terapeuta ficar amigão do paciente? Não funciona muito, né?

Casamento que é um melhor amigo

Sabe aquelas horas em que tudo parece errado? Você tropeça na rua, derrama café no vestido branco e percebe que usou a página mais importante do jornal para forrar o banheirinho da gata? Tenho tantos, mas tantos dias assim que com alguma frequência sinto uma necessidade enorme de não pensar em nada. Pasolini? Truffaut?Bergman? Até Fellini é cabeção demais nessas horas. Quero mesmo ver Meg Ryan e Tom Hanks numa previsível comédia romântica, com aquele final lindo que a gente já imaginava desde o trailer. “O casamento de Muriel” tem tudo isso e, de quebra, uma trilha sonora irresistível. E o melhor: você pode dizer, sem medo, que adora o filme. Não é feito “Sleepless in Seattle”, que vão falar que é coisa de mulherzinha, ou “City of Angels” (vocês perceberam como eu amo a Meg Ryan). Todo mundo gosta e todo mundo gosta de gostar!

José, para onde?

Não é nenhuma história que eu não tenha ouvido. Na verdade, já ouvi centenas parecidas. Sem exagero. Desde que cheguei a Nova York meu trabalho de jornalista se aliou ao de antropóloga na tentativa de entender melhor, ver de perto, a realidade dos imigrantes brasileiros. Os indocumentados sempre chamam a atenção. Primeiro, porque são a maioria. Os cálculos não são oficiais, mas a gente sempre ouve falar que em torno de 80% dos brasileiros que vivem nos Estados Unidos atualmente estão sem visto. Sempre achei que essas pessoas eram extremamente corajosas. Hoje, acho que não mais que isso. São heróis da resistência.

Como seria passar cada diazinho da sua vida pensando que alguém pode te tirar de casa? Te separar da sua família? Ou simplesmente sendo uma pessoa correta e tento que conviver com a sensação terrível de que se está fazendo algo errado? O texto de José Antonio Vargas, jornalista filipino que ganhou um prêmio Pulitzer, na revista do New York Times deste fim de semana é, ainda que familiar, emocionante. Como imaginar que alguém que conquistou tanto possa ser obrigada a viver cada dia como se criminoso fosse?

O relato de Vargas é brutal. Não são as grandes coisas, mas as pequenas privações de cada dia que o fazem mais real e próximo de cada um de nós. Imagine ganhar uma viagem com tudo para para a Suíça e dizer não? Imagina mentir para todos os colegas de trabalho, com medo de ser demitido? Agora, imagine jamais ter um relacionamento mais sério para evitar ter de contar ao outro seus segredos? É assim que milhões de pessoas de carne, osso e alma, como eu você, vivem todos os dias. José Antonio Vargas resolveu falar. Talvez por causa dele o debate sobre o DREAM Act, e tantos outros projetos de lei, volte ao centro do picadeiro.  Tomara.

Depilaram o metrô!

Foi preso hoje, em Nova York, Joseph Patrick Waldo, responsável por muitos dos meus momentos de diversão nas estações de metrô da cidade. Quem mora aqui talvez não conheça o rapaz pelo nome, mas se eu disser o apelido… Waldo é o Moustache Man, alguém que eu imaginei ser um personagem de ficção ou um exército de dez homens empolgadíssimos com a aventura.

Nada disso. É só elezinho mesmo. Waldo rabiscava um estiloso “moustache” no bigode de pessoas expostas em cartazes pela cidade. Muito mais genial que qualquer rabisco. E, devo dizer, mais criativo que muitos artistas.

O rapaz, de 26 anos, foi preso por vandalismo. Mas, fica a pergunta: quais os limites da leviandade e da arte? Será que o que ele faz não é uma piada de bom gosto, à la Baldessari? Para acompanhar a discussão, sugiro o filme “Exit through the gift shop”, que narra a criação do artista de rua Mr Brainwash. Mais uma gracinha do britânico Banksy, que se transformou num golpe milionário. Golpe ou, mais uma vez, arte? O tempo dirá. Ou não.

Lanchinho de patins

Quem nunca viu num filme aquela pista de patinação no gelo em frente ao Rockfeller Center? Quantos romances já começaram ali? Quanto casais se encontraram depois de um tombão cinematográfico no gelo? No verão não dá para a gente brincar de artistas. Gelo nenhum resistiria a este calor de meu deus. Mas como americano não tem nada de bobo, o lugar vira um charmoso bar. As tendas, na foto ao lado, protegem as mesinhas do sol. Tem fila, á claro, mas na falta dos tombos, pode ser divertido.

Soto e o nosso olhar

Poucas coisas são tão mágicas quanto a emoção que uma obra de arte provoca. No caso do meu encontro com a obra de Jesus Rafael Soto, esse sentimento foi uma mistura de arrepio, alegria e tontura. As linhas retas e os arames dançantes de Soto expandiram os limites da minha realidade. Quando saí da exposição, as ruas de Nova York tremulavam, as pessoas ganharam cores. E eu ria. Porque a felicidade de descobrir que o mundo é maior e você é menor do que pensava é impagável.

Queria mostrar aqui o que Soto provoca no nosso olhar.  Como ele mesmo diz, são trabalhos de criação coletiva, entre ele e quem vê. Depende de você, tanto quanto dele, a transformação da arte. Fotos dificilmente conseguem chegar perto do que é uma obra ao vivo. Neste caso, não dá nem pra começar. Por isso fiz um vídeo, que talvez dê uma ideia mais próxima do que acontece na sua mente e no seu coração vendo aquela explosão de informações.

E como era um dia de movimento, resolvemos ficar no tema e, de lá, seguimos para a também bela exposição de Willem de Kooning, na Pace Gallery. No caminho, passamos pelo carrinho de comida Grega que fica na esquina da 51st Street com a Park Ave. Tudo baratinho e feito com carinho pela mãe do Frank, o simpático rapaz que nos atende. Não tem erro. É este carrinho azul, bonitinho, com o nome de Uncle Gussy’s. Para quem tem medo de caminhão (eu adoro), eles tem um restaurante com o mesmo nome em Astoria, aberto desde 1971. Vale conferir.


A mãe do homem

Acaba de sair aqui em Nova York um livraço, desse que fazem a gente querer mudar o mundo. Sim, eu falo isso de vários livros, mas o que fazer? Este me lembrou o que sentir depois de “Olga”, de Fernando Morais, que acabou se tornando um presente repetido para diversos amigos (para o amigo que o ganhou de mim e está descobrindo agora que vários outros ganharam, saiba que você foi o mais especial deles).

Pois bem, “A Singular Woman” conta a história de Stanley Ann Durham, uma americana branca, nascida no Kansas, que passou boa parte da vida na Indonésia. Seria uma vida anônima, não fosse ela mãe do piratinha da foto ao lado. Reconheceu? É Barack Obama.

Retratada na campanha presidencial ora como uma branquela do interior, ora como uma mãe omissa, ela passava longe desses esteriótipos. Teve um filho negro numa época em que mais da metade dos estados americanos proibia por lei o casamento interracial. Casou-se com um indonésio e se mudou para o país dele. Aprendeu a língua local e se apaixonou pelos costumes de tal forma que, mesmo separada, continuou vivendo lá, colhendo dados para sua tese de doutorado em antropologia. Foi organizadora comunitária (como o filho), mudou a vida de muita gente (como o filho) e correu atrás da própria sorte.

Vale muito a pena.

Com o pé direito

Não é todo dia que um jornalista consegue um furo. “Furo”, para quem não é jornalista, é a palavra mais ouvida entre os que sonham em abafar na profissão. Quando você consegue um, pode saber que o chefe vai te elogiar, vem aumento por aí, você vai virar uma estrela. Ou não, né?

Pois hoje, no meu primeiríssimo post deste blog, já tenho um furo! E dos bons! Fui a um evento da Women’s Refugee Comission, uma organização com um trabalho brilhante, inspirados, que tenho acompanhado com atenção. E entre os convidados estava ninguém menos que Ban Ki-moon, secretário-geral da ONU. Ele fez um discurso bonito, falou da infância, quando ele mesmo foi um refugiado. Ele tinha seis anos e a Coréia enfrentava uma guerra brutal. A comida da família vinha da ajuda humanitária da ONU.

O Embaixador da Noruega na ONU foi quem deu o “furo” (tanto no sentido jornalístico, quanto no popular, já que ele ainda não podia divulgar a informação). Declarou que Ki-moon será eleito amanhã, por aclamação, para mais um mandato de cinco anos. O público aplaudiu e eu corri para cá para dividi a novidade. Boa sorte para ele!