Ao mestre, com carinho

Nos conhecemos quando eu tinha 18 anos e fui trabalhar como assistente de pesquisa dele, no Museu Nacional. Eu era uma capixaba recém-chegada ao Rio, estudante de jornalismo que não sabia nem o que era antropologia. Ganhava um salário e um bônus: Gilberto e Karina Kushnir dispunham do tempo deles, que valia muito mais que o meu, para replanejar o meu currículo acadêmico. O que mais uma jornalista deveria ler além do que os professores da ECO pediam? Mais Habermas? Mais Adorno? Mais Benjamin? Os dois não apenas recomendavam como depois “tomavam” a lição, para saber o que eu havia e não havia compreendido. Entre uma aula e outra, o maior aprendizado foi a generosidade.

Gilberto também me ensinou que moças devem andar do lado de dentro da calçada, protegidas pelo cavalheiro. E que lembrar o nome do autor é muito mais importante que o do livro. E que tudo, tudo mesmo, pode ser objeto de estudo. E que se olharmos bem, um assunto que parece pequenino, fica maior que o universo. E que jornalismo, antropologia, história não são ciências separadas, mas dedos de uma só mão: o ser humano. E que soldadinhos de chumbo guardam histórias. E que o teto das salas de aula do Museu Nacional caiu só uma vez, muito tempo atrás. E que Giralda havia sido campeã de vôlei. E que ele era um esgrimista para Errol Flynn nenhum botar defeito. E que se ele ficava zangado, talvez fosse o caso de esperar uns três dias para o coração dele se encher de saudade e tudo acabar em pizza. Na Capricciosa, de preferência.

Entre blagues e citações (com direito ao número da página e tudo), Gilberto plantou em mim a paixão pelo estudo. Passei a me interessar pelo mundo acadêmico, fiz um mestrado, outro, publiquei um livro. Mais que isso: por causa dele me tornei quem eu sou hoje. Tem muita gente com quem convivemos ao longo de décadas que não influencia em nada quem nos tornamos. Gilberto ajudou a forjar centenas de orientandos. Lendo as reportagens sobre sua despedida, fiquei intrigada com a frase “não deixa filhos.” Somos centenas deles. Para sempre saudosos. Para sempre agradecidos.

((clique aqui para ler o belíssimo artigo de Karina Kushnir em homenagem a Gilberto Velho))

 

Mais surreal que Buñuel

Eu precisava assistir a um filme para uma aula. Procurei no Netflix e não havia nem registro. Pesquisei no Google e percebi que seria difícil. Era “The Criminal Life of Archibaldo de la Cruz”, longa de Luis Buñuel, de 1955. Resolvi, então, buscar na NY Public Library que, como vocês já viram em outros posts, é uma das alegrias da minha vida. Achei. Só que tinha uma observação: o filme estava off-site.

Tudo bem. Pedi assim mesmo, imaginando que teria de esperar um bocado. No dia seguinte chegou um email do Johny, o livreiro. “O seu filme já foi solicitado, mas você está ciente de que não é um DVD? Vai ter que vir até aqui assistir, ok?” Hummmm… Em nome da Santa dos Jornalistas (ou curiosos), resolvi topar.

Ontem fui até a NY Public Library especializada em Performing Arts, que fica no Lincoln Center. Cheguei lá e Johny já me esperava, com os três rolos de 16mm que você vê na foto ao lado. Sim, amigos e amigas. O que me aguardava, de graça, com hora marcada, era uma sessão privé de cinema, em uma sala fofa, com um projetista particular. E vale o toque: o espaço é grande, portanto professores ou grupos maiores podem avisar e assitir juntos. Como disse uma amiga minha é uma ótima ideia para um date! Já pensou pedir o filme predileto dela/ dele, que já está fora de catálogo, e fazer uma surpresa dessas. Oh-la-la!

Que emoção assistir a um filme como antigamente! Tendo que chamar Johny a cada meia hora para trocar os rolos! Meu amor por esta cidade aumentou ainda mais vendo que o dinheiro dos impostos é tão bem investido em cultura, saber, memória. Tudo ali, à disposição de qualquer um. Basta descobrir o que a cidade tem a oferecer. Mais uma vez, para os que dizem que Nova York é cara, ela se apresenta com uma série de alternativas que a tornam única. Fiz questão de tirar fotos, de tão embasbacada que fiquei. E para vocês não dizerem que eu sou suspeita, dada minha paixão incondicional pela cidade.

Para fazer parte da NY Public Library, basta procurar uma delas com um documento de identidade e um comprovante de residência. E mesmo que a unidade mais perto da sua casa não seja nenhuma Brastemp, é só entrar no site, requisitar o livro/ filme/ cd, e eles levam até a unidade que você quiser. De graça. Juro.

Comédia de pé: ame-a ou deixe-a?

Demorei para me render aos encantos da standup comedy. Lembro bem de, quando criança, ver programas americanos e não entender de onde vinha a graça. Achava tudo bobo demais. Ainda não sou super fã mas, pouco a pouco, vou me acostumando e descobrindo os meus favoritos.

Ajudou muito a reportagem que fiz sobre mulheres na standup comedy para o Caderno Ela, do jornal O Globo (clique na foto ao lado ou aqui para ver). Foi a partir dela que conheci o UCB (Upright Citizens Brigade) Theatre, uma casa pequena em Nova York, com uma programação extensa e um preço mínimo. A entrada costuma ser $5,00. Catie Lazarus, que entrevistei para a reportagem, está sempre lá. Tina Fey menciona o lugar várias vezes em seu livro. É uma boa pedida para quem quer se aventurar sem perder muito dinheiro. Aí, se gostar você volta. Caso contrário, não sai danado da vida, já que o investimento foi baixo.

Mas, de volta aos favoritos, tenho visto vários vídeos do Louis CK. Tem alguns instantâneos no Netflix. Ele faz um monte de piadas preconceituosas, já aviso de antemão. Mas também tem números sobre a vida de casado, a criação dos filhos, coisas do dia-a-dia. Vale a pena conferir.

 

Happy Subway Easter!

A melhor coisa de viver em Nova York é ter o mundo inteiro no espaço de uma ilha. Hoje, domingo de páscoa, bem que pensei em ir a uma das igrejas da vizinhança. Não consegui, mas vi as ruas cheias de gente saindo delas. Não é que à noite, voltando para casa de metrô, a igreja veio até nós? Pelo menos o coral do Harlem estava lá. Ninguém pediu dinheiro, nada. Era só mesmo para celebrar. Viva NY. Boa páscoa a todos!

 

Boa hora para o Guggenheim

O Guggenheim é um museu especial porque, ao contrário dos grandes museus de Nova York, não é assim tão grande. É possível fazer uma visita bem completa e tranquila em apenas um dia. Melhor ainda quando as exposições temporárias valem a pena. Desta vez vi duas ótimas.

John Chamberlain: Choices traz um panorama da carreira do artista, morto em dezembro do ano passado. Eu vi uma bela exposição dele na Gagosian, há mais ou menos um ano, mas a do Guggenheim é diferente porque reune obras de várias fases. Vemos Chamberlain minimalista, pop, expressionista, escultor, pintor, louco. Apesar da voz irritante da curadora, é bacana ouvir o audioguide, gratuito, que explica em detalhes a caminhada do mestre da transformação de automóveis em arte.

Além dessa, a exposição sobre a obra de Francesca Woodman é de encher os olhos. Muito se fala sobre a fotógrafa que se suicidou aos 22 anos, mas na reunião de suas obras descobre-se que há muito mais a se falar dela, além da morte trágica. Apesar de breve, a carreira de Woodman é sólida, baseada em auto-retratos (curadores juram que qualquer semelhança com Cindy Sherman no Moma é mera coincidência) de uma crueza e cruedade gritantes.

Chamberlain fica até 13 de maio; Woodman até 13 de junho.

Hipsters em Nova York

Se você já foi a Williamsburg, no Brooklyn, ou caminhou pelas ruas do Soho, certamente esbarrou em um deles. Os hipsters são figura constante nessas áreas de Nova York. Considerados a tribo mais bem sucedida das últimas décadas (até porque eles já duram duas décadas), eles são uma espécie de mistura de hippie e yuppie com um tino empresarial fortíssimo. Inspiraram recentes estudos acadêmicos e a série Portlandia.

Esta semana a revista Carta Capital traz uma reportagem de Francisco Quinteiro Pires sobre a tribo. Eu assino as fotos. Para ler, clique aqui.