Hi + Low

 

 

 

Na correria de escrever todos os dias algo novo no meu blog do Ela Digital, faz tempo que não posto nada original para este blog aqui. Tá certo, as coisas de lá eu escreveria cá. Mas hoje, vendo um filme bacana, me deu vontade de unir esses dois lares.

“The Queen of Versailles” é um daqueles filmes em que é difícil apontar qual o maior mérito do documentarista: a sorte ou o talento. Lauren Greenfield começou a registrar a saga da família Siegel quando David e Jackie construíam “a maior casa da América”. Uma aberração milionária em Orlando, FL, imitando o Palácio de Versailles, mas com sushibar, barbearia e academia (será que Luis XIV malhava?). No meio das gravações, vem a sorte. Em 2008, com a crise do mercado imobiliário, Siegel se vê mais quebrado que arroz de quinta. Logo ele que se orgulhava de dizer ter sido o grande responsável pela vitória de Bush.

Greenfield capta a derrocada da família. E isso já seria um belo roteiro. Mas eis que entra o talento. Em vez de uma edição óbvia, em que a o ridículo daquela turma brota a olhos vistos, ela opta pelo respeito. Alterna momentos de ternura a “semnoçãozice”. Torna os sentimentos do espectador angustiantemente misturados. É claro que, depois, tudo volta ao devido lugar. Basta dar um google e descobrir que David Siegel se recupera e, de volta à pose de patrão, envia um email coletivo aos seus funcionários pedindo que eles votem em Ronmney.

Mas eu disse que misturaria as duas coisas. Coincidência ou não, o post de hoje no Nova York – Ela Digital foi um belo contraponto a “The Queen of Versailles”. Trata-se de um projeto que leva música a uma das áreas mais pobres da cidade.

Inspirados pelo venezuelano El Sistema, que oferece aulas de música para crianças em comunidades de risco, um grupo de nova-iorquinos implantou o UpBeat NYC, no sul do Bronx. Os instrumentos e as aulas são gratuitos e carregam a ideia de que a música pode mudar vidas. Pelo menos para os moradores desta região, isso já está acontecendo.

Uma das áreas mais violentas da cidade agora tem uma orquestra com 36 integrantes. Hoje as crianças apresentam seu primeiro concerto, às 19h00, no Betances Community Center (547 East 146th Street, The Bronx). É uma ótima oportunidade para conhecer o borough menos turístico da cidade. E quem sabe descobrir um Gustavo Dudamel antes de ele virar ídolo.

 

Quando Nola supera NY

A série do momento é Newsroom, da HBO. A redação fictícia fica em Nova York. Lá, todo mundo fala rápido e toma porre. É bem divertido. Principalmente para jornalistas que sabem que a realidade não é bem assim. Eu, que nunca consegui acompanhar nenhum seriado, aguentei os três primeiros feliz. Mas esperar ansiosamente pela semana seguinte, amar uma série com a mesma intensidade que amo Avenida Brasil, só aconteceu uma vez. Tremé. A série, também da HBO, causa alvoroço aqui em casa. A gente canta junto a música de abertura, se emociona com as histórias de quem viveu o terrível Katrina e sobreviveu a ele.

Em 2010, passei mais de 20 dias em Nova Orleans. É a Salvador dos americanos. Mistura de raças, culinárias, cores, sons. Visitei o 9th Ward, a área mais devastada pelo furacão, cinco anos depois. Parecia que o Katrina havia passado na semana anterior, tamanha a destruição. Fui à Frenchmen Street várias noites, ouvir jazz do bom. Conheci gente de todo tipo, algo comum por lá. São pessoas cheias de sorrisos e causos. Uma delícia.

Tremé tem tudo isso. Música boa, pesonagens detestáveis e encantadores e as paisagens lindas da cidade mais brasileira dos Estados Unidos. Super recomendo.

Mais um para a lista!

Ontem um amigo postou no Facebook uma lista com 33 maneiras de se manter criativo. A primeira era: faça listas. Eu adoro. Não aquelas repletas de coisas já executadas. Gosto mesmo é de fazer listas de projetos. Lugares que quero visitar, amigos para quem preciso ligar, livros que quero ler… Minha agenda é uma imensidão de ideias e porfazeres. E essa última lista me tirou de vez a vergonha da mania estranha.

Pois eis que a Time Out desta semana nos presenteia com mais uma lista: os 100 melhores filmes de Nova York. Quem mora aqui certamente sabe do que eu estou falando. A gente entra numa obsessão louca para ver tudo o que já foi para as telonas tendo como cenário as paisagens daqui. Talvez seja uma tentativa de explicar por que a cidade nos é tão familiar, logo de cara. Talvez seja para justificar a sensação eterna de ser a pessoa mais sortuda do mundo apenas por viver nela. Ou simplesmente para brincar de descobrir que esquina no Upper West Side era aquela em que o Tom Hanks beijou a Meg Ryan. Sim, aposto que, como eu, você já se pegou tentando apontar onde fica o banco de “Manhattan” que dá vista para a Brooklyn Bridge. Ou em que rua da Little Italy acontece o tiroteio de “O Poderoso Chefão”.

Listar favoritos entre tantas maravilhas construídas nesta paisagem é difícil, será invariavelmente injusto, mas pode ser bem divertido. Eu fiquei feliz descobrindo, entre clássicos, alguns filmes que não vi. Ontem foi a vez de “Midnight Cowboy” (Jon Voight, Dustin Hoffman e… instantâneo no Netflix!). Só por ele, a lista já valeu a pena. E você? Qual o seu filme favorito rodado em Nova York? Vamos fazer mais uma lista?

Ode à gelada

Da série “só mesmo em Nova York”: está em cartaz uma exposição sobre a história da cerveja na cidade. No final, dentro do museu mesmo, o visitante pode participar de uma degustação das bebidas que acabou de conhecer. O programão é no New York Historical Society, um museu fundado em 1804 que atualmente é um dos mais modernos – e divertidos – do pedaço. Se for, guarde um tempinho para o vídeo (incluído no ingresso) exibido em telões high tech e narrando uma breve história da melhor cidade do mundo.

A exibição fica até o dia 02 de setembro e traz desde informações sobre a colheita do lúpulo até as estratégias usadas pelos novaiorquinos para burlar a lei seca. Aliás, eu deveria ter feito um post sobre Prohibition, o ótimo documentário de Ken Burns sobre o período, que está disponível no Netflix. Enquanto isso, lá no fim do post tem um pedacinho do segundo espisódio.

Voltando ao museu, os curadores reuniram objetos usados na produção da bebida, jingles de algumas das primeiras marcas (em um deles, o locutor pergunta a Nat King Cole qual a marca que ele está bebendo) e até o vestido da dona de uma das cervejarias. Não é nada grandioso, mas é um belo programa para uma tarde quente de verão. E, claro, vale um brinde no final, para comemorar o privilégio de viver em uma cidade assim.

Made in Dagenham

Na semana em que a proposta de lei pela igualdade entre salários de homens e mulheres foi derrubada pelos senadores republicanos, vale a pena dar uma olhadinha no filme “Made in Dagenham“. Ele se passa no fim dos anos 1960, quando mulheres trabalhadoras de uma planta da Ford entraram em greve pedindo algo básico: direitos iguais. O filme não é extraordinário, como não deveria ser uma luta tão essencial. Mas mostra que a questão é antiga e, em muitos países, já teve solução. O Reino Unido tem uma “Equal Pay Bill” desde 1970. Aqui nos Estados Unidos, as mulheres ganham 77% do que recebem os homens. A lei não passou por pura pressão política. Em ano eleitoral, a proposta democrata foi massivamente derrotada pelos republicanos. Esse também vai ser um dos assuntos do Globo Notícia Américas deste domingo.

Mistérios de Lisboa

Já sei que este será um dos posts menos populares da história dos posts. Mas tudo bem. Preciso falar sobre “Mistérios de Lisboa“, um dos meus novos filmes preferidos de todos os tempos. Posso dizer que ele teve em mim o mesmo efeito dos livros de Orhan Pamuk. Me despertou uma renovada paixão pela arte. Vejo filmes como se não houvesse amanhã, um atrás do outro, mas alguns dos mais recentes vinham me desanimando um bocado. Filmes de gente que eu adoro, como o último da Miranda July (The Future) ou o último do Herzog, que aliás, vi anteontem (Into the Abyss) são, no máximo, em um dia de extremo bom humor, regulares. Mistérios de Lisboa, não. É um filmaço.

A adaptação da obra de mesmo nome de Camilo Castelo Branco tem 4h26. Isso mesmo. Quase uma ópera de Wagner. Tem que querer muito ver. Eu sou do time que acha que, desde O Poderoso Chefão, nenhum filme deveria ter tido mais de 3 horas. Mas essa obra-prima de Raul Ruiz vale cada respiro, cada plano alongado. Originalmente feito para a televisão, era uma série de 6 capítulos de uma hora cada (seria obsessivo demais ver agora a série? hummmm…). É até difícil resumir a história. São tantos personagens com histórias fascinantes, que qualquer tentavia seria injusta. Mas como jornalistas são injustos e irresponsáveis por definição, vamos lá.

A história gira em torno de João (ou Pedro da Silva), que tenta descobrir quem são seus pais. A mãe é um condessa que teve um grande amor (que não é o conde). O pai foi perseguido e… Pronto. Já estou estragando a história. Bom, posso dizer que tem padre, monge, filhos bastardos, a realeza toda, bandidos, mocinhas, freiras e por aí vai. Claro, tudo regado a mistérios e àquele sotaque delicioso, como diz o nome. O cenário é esplendoroso, a direção impecável, os diálogos de chorar. E tcharam: instantâneo no Netflix.

Mais surreal que Buñuel

Eu precisava assistir a um filme para uma aula. Procurei no Netflix e não havia nem registro. Pesquisei no Google e percebi que seria difícil. Era “The Criminal Life of Archibaldo de la Cruz”, longa de Luis Buñuel, de 1955. Resolvi, então, buscar na NY Public Library que, como vocês já viram em outros posts, é uma das alegrias da minha vida. Achei. Só que tinha uma observação: o filme estava off-site.

Tudo bem. Pedi assim mesmo, imaginando que teria de esperar um bocado. No dia seguinte chegou um email do Johny, o livreiro. “O seu filme já foi solicitado, mas você está ciente de que não é um DVD? Vai ter que vir até aqui assistir, ok?” Hummmm… Em nome da Santa dos Jornalistas (ou curiosos), resolvi topar.

Ontem fui até a NY Public Library especializada em Performing Arts, que fica no Lincoln Center. Cheguei lá e Johny já me esperava, com os três rolos de 16mm que você vê na foto ao lado. Sim, amigos e amigas. O que me aguardava, de graça, com hora marcada, era uma sessão privé de cinema, em uma sala fofa, com um projetista particular. E vale o toque: o espaço é grande, portanto professores ou grupos maiores podem avisar e assitir juntos. Como disse uma amiga minha é uma ótima ideia para um date! Já pensou pedir o filme predileto dela/ dele, que já está fora de catálogo, e fazer uma surpresa dessas. Oh-la-la!

Que emoção assistir a um filme como antigamente! Tendo que chamar Johny a cada meia hora para trocar os rolos! Meu amor por esta cidade aumentou ainda mais vendo que o dinheiro dos impostos é tão bem investido em cultura, saber, memória. Tudo ali, à disposição de qualquer um. Basta descobrir o que a cidade tem a oferecer. Mais uma vez, para os que dizem que Nova York é cara, ela se apresenta com uma série de alternativas que a tornam única. Fiz questão de tirar fotos, de tão embasbacada que fiquei. E para vocês não dizerem que eu sou suspeita, dada minha paixão incondicional pela cidade.

Para fazer parte da NY Public Library, basta procurar uma delas com um documento de identidade e um comprovante de residência. E mesmo que a unidade mais perto da sua casa não seja nenhuma Brastemp, é só entrar no site, requisitar o livro/ filme/ cd, e eles levam até a unidade que você quiser. De graça. Juro.

O Elogio

Este blog é um ótimo canal de conversa. Sei de gente que segue minhas dicas e eu também recebo várias boas ideias por aqui. Mas além desse diálogo precioso, também uso o espaço para guardar lembranças de coisas especiais que vi, li, ouvi nesta Nova York incansável. De uns tempos para cá tenho postado menos dicas culturais porque a cidade não para e quando o inverno vai se despedindo a gente tem tanta coisa para fazer que nem dá tempo de registrar tudo.

Uma amiga me disse certa vez que queria montar um jornal chamado “O Elogio”, só para falar bem das coisas. Críticas negativas estariam fora. Pois hoje resolvi juntar em um só post quatro coisas bacanérrimas que fiz nas últimas semanas e acabei não registrando por aqui.

A primeira talvez tenha sido a mais emocionante. Fomos ver Madama Butterfly na Metropolitan Opera. A montagem é linda de doer, mas a emoção maior foi ver mais uma novidade de Plácido Domingo. Desta vez, na regência. Pode existir coisa mais incrível do que ver um ídolo absoluto se desafiando em diferentes papeis? Amigos que entendem da coisa dizem que, como maestro, ele não é tecnicamente incrível. Eu, que não entendo, fico apenas com o lado emocional. E nesse, ele é impecável. Dois anos atrás, haviamos visto outra estreia: em Simon Boccanegra, Domingo fez seu primeiro papel como barítono. Para quem acha loucura se lançar a desafios depois de uma certa idade, taí a lição.

Ultimamente tenho lido apenas o que é pedido para as aulas. O volume de leitura é absurdo e os livros sobre outros assuntos tiveram de ser adiados para maio, quando a correria do mestrado passar. Só que muitas vezes a gente esbarra em pérolas entre os livros indicados pelos professores. “Codes of the Underworld – How criminals communicate”, de Diego Gambetta, é uma delas. Para quem gosta de filmes de máfia, é um prato cheio, divertido e repleto de histórias para contar para os amigos.

Também já falei há alguns dias da exposição do Jesús Rafael Soto (o bonitão de bigode na foto lá do alto), em cartaz até o fim do mês na Grey Art Gallery. Estive lá esta semana e queria, mais uma vez, recomendar o programa. Para quem não conhece a obra dele, é uma oportunidade imperdível de ver algo completamente diferente de tudo. Para quem conhece, a exposição vale a pena por ser uma bela recapitulação da fase mais especial do artista.

Por último, mas não menos importante, o filme mais fofo da semana foi Chico e Rita, em cartaz em poucos cinemas da cidade. O desenho é uma delícia, um programão para um domingo à tarde. A trilha de Bebo Valdés faz qualquer um sair da sala levitando. E acho que vale a pena ver numa tela grande. A simplicidade às vezes merece esse cartaz.

The Loving Story

O International Center of Photography tem feito algumas das melhores exposições da cidade nos últimos anos. Fui lá este fim de semana para ver “Weegee: murder is my business” e saí, mais uma vez, impactada. A curadoria é impecável provendo, além das fotos, claro, uma imagem surpreendente do homem por trás da câmera. Jornalistas com algum grau de convivência com repórteres investigativos vão reconhecer vários amigos ali.

Se for ver Weegee, não deixe de dar uma pulinho na diminuta, porém rica exposição “The Loving Story”. Ela conta a história de Richard e Mildred Loving, um casal interracial que vivia na Virgínia nos anos 50, quando uniões desse tipo eram proibidas por lei no estado. Isso mesmo. Outro dia. Os dois foram fotografados por Grey Villet para a revista Life e as fotos deram origem a essa exposição.

A HBO também acaba de lançar um documentário sobre a história do casal, que não participou diretamente da luta pelos direitos civis, mas acabou se tornando um símbolo dela. Os dois foram condenados a um ano de prisão pelo “crime” porque, segundo o entendimento do juíz, Deus havia feito as raças diferentes para que elas não se misturassem jamais. Parece surreal, mas esse pensamento permeava a lei de mais de 15 estados americanos até os anos 60. De tempos em tempos, é bom refrescar a memória, ver quanto já caminhamos e quanto ainda precisamos caminhar.

A exposição de Weegee vai até setembro, mas a do casal Loving fica só até 6 de maio.

O rei de Manhattan

A vida de Woody Allen daria um filme, mas não um filme de Woody Allen. Talvez Michael Curtiz se interessasse mais pela história, bem no estilo Mildred Pierce, do pai adotivo que se casa com a filha. Woody Allen acha tudo que o rodeia tão desinteressante que resistiu por décadas a ter sua história contada. Dizia que ninguém se interessaria.

Hoje a Folha de S. Paulo traz uma entrevista feita por Francisco Quinteiro Pires com o diretor de Woody Allen: A Documentary, Robert Weide. O filme, em dois capítulos, foi exibido pela PBS. Uma belezinha. Infelizmente o canal tirou o streaming da internet, mas já é possível encontrar o DVD. Weide nos leva, claro, para um passeio por Manhattan, mas também pelo Brooklyn de Allen, pelas paixões, as amizades, as tragédias e a simplicidade desse obsessivo cineasta.

Para quem estiver em Nova York, um programa caro (o couvert é $135 por pessoa), mas que vale a pena, é ver Woody Allen e sua banda se apresentando no Carlyle Hotel. Toda segunda-feira ele passa por lá com seu clarinete. Não é o mais talentoso dos músicos, mas é o Woody Allen. E quando fui, ainda esbarrei no Daniel Day Lewis na saída. Tá bom, né?

No vídeo abaixo, Robert Weide faz doze perguntas improváveis ao diretor, que este ano concorre ao Oscar com Midnight in Paris.