Churchill na Morgan Library

Uma dica bem rapidinha… até porque a exposição só vai até domingo! “Churchill: The Power of Words”, na Morgan Library, ocupa uma pequena sala mas vale por algumas aulas história. Documentos narram a trajetória do líder britânico desde a infância. Uma cabine exibe 21 minutos de discursos célebres, que confirmam a palavra como a grande arma de Churchill (ele, aliás, ganhou um Prêmio Nobel de Literatura).

Como a exposição é rapidinha, aproveite para fazer uma passeio pela bela Morgan Library. Eu não conhecia e fiquei impressionada com os mosaicos nos tetos, as salas chiquérrimas e a coleção de livros, que incluiu três Bílblias de Gutenberg. Hoje, um violinista e uma flautista tocavam no átrio ao lado do restaurante. Programão.

Evento para a criançada!

Nesses três anos e meio (como o tempo passa rápido, socorro!) em que venho acompanhando de perto a realidade dos brasileiros que vivem aqui nos Estados Unidos, uma das coisas que mais me chamaram a atenção foi a dificuldade que os pais tinham de ensinar o português aos pequenos. Principalmente em lares em que um dos pais é brasileiro e o outro americano. Nas minhas andanças pelo país, só encontrei um colégio, na Flórida, com aulas regulares do nosso idioma. Por isso ao conhecer a Felicia Jennings-Winterle e o Brasil em Mente me entusiasmei de imediato.

Felicia é formada em musicologia e é uma dessas pessoas cativantes, por quem você passa a torcer de primeira. Ela fundou a instituição, conseguiu o apoio de um monte de gente bacana, inclusive do consulado brasileiro, e montou uma biblioteca na sede. Além dos eventos que promove lá, ela organiza colônias de férias, ensina português e música para as crianças. Um barato.

Neste domingo a biblioteca completa um ano e tenho o maior prazer em participar dessa festa. Vou ler algumas historinhas para os brasileirinhos entre as 3 e 5 da tarde. Haverá muitas outras atrações, portanto se você têm filhos, netos, sobrinhos, afilhados, filhos dos amigos, leve a turma para lá!

A Brasil em mente fica no endereço 2 W 47th st Ste 507, New York, NY, 10036. O telefone é (347) 893 9634.

O Elogio

Este blog é um ótimo canal de conversa. Sei de gente que segue minhas dicas e eu também recebo várias boas ideias por aqui. Mas além desse diálogo precioso, também uso o espaço para guardar lembranças de coisas especiais que vi, li, ouvi nesta Nova York incansável. De uns tempos para cá tenho postado menos dicas culturais porque a cidade não para e quando o inverno vai se despedindo a gente tem tanta coisa para fazer que nem dá tempo de registrar tudo.

Uma amiga me disse certa vez que queria montar um jornal chamado “O Elogio”, só para falar bem das coisas. Críticas negativas estariam fora. Pois hoje resolvi juntar em um só post quatro coisas bacanérrimas que fiz nas últimas semanas e acabei não registrando por aqui.

A primeira talvez tenha sido a mais emocionante. Fomos ver Madama Butterfly na Metropolitan Opera. A montagem é linda de doer, mas a emoção maior foi ver mais uma novidade de Plácido Domingo. Desta vez, na regência. Pode existir coisa mais incrível do que ver um ídolo absoluto se desafiando em diferentes papeis? Amigos que entendem da coisa dizem que, como maestro, ele não é tecnicamente incrível. Eu, que não entendo, fico apenas com o lado emocional. E nesse, ele é impecável. Dois anos atrás, haviamos visto outra estreia: em Simon Boccanegra, Domingo fez seu primeiro papel como barítono. Para quem acha loucura se lançar a desafios depois de uma certa idade, taí a lição.

Ultimamente tenho lido apenas o que é pedido para as aulas. O volume de leitura é absurdo e os livros sobre outros assuntos tiveram de ser adiados para maio, quando a correria do mestrado passar. Só que muitas vezes a gente esbarra em pérolas entre os livros indicados pelos professores. “Codes of the Underworld – How criminals communicate”, de Diego Gambetta, é uma delas. Para quem gosta de filmes de máfia, é um prato cheio, divertido e repleto de histórias para contar para os amigos.

Também já falei há alguns dias da exposição do Jesús Rafael Soto (o bonitão de bigode na foto lá do alto), em cartaz até o fim do mês na Grey Art Gallery. Estive lá esta semana e queria, mais uma vez, recomendar o programa. Para quem não conhece a obra dele, é uma oportunidade imperdível de ver algo completamente diferente de tudo. Para quem conhece, a exposição vale a pena por ser uma bela recapitulação da fase mais especial do artista.

Por último, mas não menos importante, o filme mais fofo da semana foi Chico e Rita, em cartaz em poucos cinemas da cidade. O desenho é uma delícia, um programão para um domingo à tarde. A trilha de Bebo Valdés faz qualquer um sair da sala levitando. E acho que vale a pena ver numa tela grande. A simplicidade às vezes merece esse cartaz.

The Perón Novel

Dizem que política é feito novela: mudam os atores, mas os personagens são sempre os mesmos. Tomás Eloy Martínez levou isso a sério. É impossível saber onde acaba a história e começa a ficção em “The Perón Novel”. Muitos dos comportamentos de Juan Perón podem ser identificados ainda hoje, em políticos da região.

No livro, Perón é o personagem principal, mas a história é contada pelos coadjuvantes. A partir deles se forma o Perón ser humano, cheio de fraquezas e inseguranças. Um jeito surpreendende de construir – e desconstruir – um dos maiores mitos da história argentina.

Pode não ser uma dica previsível. Não se trata de um romance comum. Mas para quem se interessa por história, é um prato cheio. Eloy Martínez aborda o momento em que o líder volta do exílio na Espanha. Já está em declínio físico e político. O livro ganha muito com isso. Consegue transformar fatos políticos em uma novela rocambolesca de primeira linha. Foi surpreendente descobrir no trabalho de um acadêmico tamanha maleabilidade.

Com o volume de leitura do mestrado, não tenho conseguido ler nada além do exigido pelos professores. Mas quando a bibliografia pede um livraço desses, entendo por que estudar é tão bom.

Clique aqui para ler a crítica do NY Times da época em que o livro foi publicado.

In the Penal Colony

Já faz muito tempo que não passo aqui pelo blog para dividir com vocês as coisas bacanas que encontro aqui em Nova York. O motivo é muito simples: há mais ou menos um mês não consigo fazer quase nada além de estudar e trabalhar. Peço desculpas pela ausência, mas minhas aulas começaram e vida de estudante por aqui não é brincadeira. Não bastasse isso, o trabalho continua a todo vapor. Então, tempo mesmo, só para ler os livros exigidos pelos professores. E olhe lá!

Mas ontem, no meio dessa confusão, resolvi dar uma escapada e esbarrei em mais um desses programões que Nova York adora aprontar. “In the Penal Colony” é uma ópera de Phillip Glass baseada na obra de Franz Kafka. Ontem, foi apresentada em Brooklyn Heights. Só quem em um palco diferente. A igreja de Saint Ann, linda, linda, recebeu uma pequena orquestra, um baixo, um tenor e um público encantado. O assunto não é dos mais tranquilos. A obra fala de tortura. Justo quando estou lendo dois livraços para a aula de segunda-feira, sobre o regime Pinochet. Documentos incríveis, mas que trazem de volta histórias arrasadoras. Tristes demais.

O jeito é segurar o rebolado e lembrar o privilégio que é morar em uma cidade que nos presenteia com tantas coisas incríveis, em qualquer esquina, por um precinho bem camarada. Até achei um vídeo com a ópera do Glass. Mas do jeito que eu vi ontem, em uma igreja gótica, só em Nova York

Senegal é logo ali

Chinatown é a mais famosa, mas Nova York tem dezenas de vizinhanças representativas da cultura de outros países. Grécia, Rússia, Brasil, Israel, Itália, são alguns dos que concentram suas raízes em quarteirões da cidade. Pudera. Nova York nasceu pelas mãos de imigrantes e renasce a cada dia pelas histórias de diferentes povos. Quando conhecemos um novaiorquino da gema a surpresa é enorme.

O livro “New York: the big city and it’s little neighborhoods” é um ótimo começo para explorar essas regiões, quase sempre esquecidas pelos guias turísticos. Mas é mesmo apenas o início da aventura, já que as riquezas desses cantinhos não cabem em poucas páginas.

Minha dica de hoje é explorar a Little Senegal, na região entre as ruas 116th e 119th, entre a Adam Clayton Powell (7th Ave) e a Fredrick Douglass (8th Ave). É coisa para iniciados. Desafio para quem já viu de tudo por aqui e está disposto a se surpreender ainda mais. Quase na esquina da Fredrick Douglass com a 116th fica a mesquita Masjid Aqsa, sempre lotada. Em alguns momentos da tarde, é impossível passar pela calçada, tomada por religiosos ajoelhados em direção a Meca. Em frente, ficam bancas onde mulheres usando o Hijab, o véu islâmico, vendem temperos (como na foto acima). Os homens seguem com Thoubh colorido e Taqiyah, se misturando aos moradores da região (na foto abaixo). Na minha opinião, ficar paradinho em qualquer esquina observando a beleza dos trajes já vale o passeio.

O lugar tem, ainda, restaurantes incríveis. Quem quiser entrar no espírito senegalês e ouvir gente falando francês com o delicioso sotaque de lá, pode ir ao Patisserie des Ambassades, que serve pães e sobremesas deliciosas. Lá também é possível jantar ou almoçar, aproveitando um cardápio que mistura pratos franceses e árabes. O suco de gengibre é imperdível. Para os mais conservadores uma cerveja na Harlem Tavern e um cookie no Levain resolvem a questão.

Já escrevi aqui um post sobre o suposto Soha (South Harlem), que é logo abaixo na Little Senegal. Se você achar a aventura ousada demais, basta descer algumas quadras e encontrar outros tantos restaurantes e bares. Mas eu recomendo o mergulho na cultura senegalesa. Afinal, Nova York é para isso.

A gentileza de Nova York

O transporte público é o resumo de uma sociedade. A cidade funciona ou não de acordo com a disponibilidade dele; as pessoas chegam aonde querem, quando querem, se ele quiser; as relações se desenvolvem por causa dele. E nele.

A foto aí do lado foi tirada no último fim de semana e mostra um pouco da beleza desta cidade. Quando vim morar em Nova York, um conhecido nuvem-negra me recomendou que colocasse a simpatia no bolso e encarasse a cidade com toda a agressividade que eu tivesse. Nova York, ele me explicou, era uma selva. Eu precisava reagir aos avanços dos brutamontes que viviam aqui com unhas e dentes. Logo que desembarquei, tive várias surpresas. Perdida na rua, era rapidamente abordada por pessoas querendo me ajudar. Os vizinhos me davam bom dia (isso é privilégio do Harlem, tenho que reconhecer) e em alguns estabelecimentos eu era muito bem tratada. Em outros, nem tanto, mas nada muito diferente de Copacabana ou da Vila Madalena.

Os amigos que vivem aqui dizem o mesmo. A cidade não é nada do que lhes haviam dito. As pessoas não são agressivas e, se forem, basta responder educadamente para deixar o malandro mau humorado de calças curtas. As pessoas ficaram mais gentis? Foi o 11 de setembro? Não sei. Sei apenas que quando passei pelo ônibus e vi, através do vidro este labrador lindo, o motorista fez questão de abrir a porta para eu conversar com o cão-guia. Feliz da vida, descolou um sorrisão e começou a elogiar o bichinho, o dia, a cidade.

Hoje, voltando para casa de metrô, conheci Cedric. Professor de música e gerente de um bar de tapas, em downtown, ele era a cara do escritor Teju Cole. Perguntei se era ele. “Não, não sou eu. Ms como é o nome dele? E do livro dele? Você recomenda?” A conversa, foi da 14th Street até a 110th. Rendeu algumas indicações de livros (eu falei de Museu da Inocência e ele de The Cloud Atlas) e um aperto de mão. Descobrimos que somos vizinhos e esperamos nos reencontrar em mais um metrô, qualquer dia. Pois é assim que se constrói uma cidade.

O Museu da Inocência

Se eu pudesse escolher um único livro para ler este ano, seria “O Museu da Inocência”. Mesmo sabendo que 2011 ainda está longe de acabar e muitas coisas incríveis podem aparecer nos próximos meses (principalmente quando se aproxima uma viagem ao Velho Continente), duvido que alguém consiga me presentear com tamanha beleza. Orhan Pamuk é um gênio.

Em suas 532 páginas que, juro, passam num instante, o livro nos guia por uma Istambul com cara de Constantinopla, ainda mais conservadora e bela. Passeamos por canções, filmes, paisagens, levados pelas coloridas e dolorosas palavras de Pamuk. Vivemos a história dos amores contrariados, com cheiro de amêndoas amargas. Sim, Pamuk me lembrou muito o meu favorito de Gabriel García Márquez, “O amor nos tempos do cólera”. O livro é tão sagrado para mim que nem tive coragem de ver a adaptação para o cinema. Não quero a casa de Juvenal Urbino retratada de um outro jeito que não seja o que minha cabeça ergueu. Nem Florentino Ariza com cara de Javier Bardem. Assim como, se houver uma adaptação de “O Museu da Inocência” jamais a verei.

O vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 2006 narra a história de um amor obsessivo, intenso e, claro, impossível. Kemal está comprometido com Sibel, prestes a casar, quando reencontra Füsun, uma parente distante. Encantado, joga tudo para o alto em nome dessa paixão avassaladora. Vê sua vida de ponta cabeça. Dia após dia recolhe objetos que representem aquele sentimento. As roupas da amada, os frascos de perfume, os brincos, os cachorrinhos bubble head que decoravam a televisão da sala, os jogos da mesa de jantar. Tudo isso vfaria parte de um museu, na casa onde a família vivia. O livro fez tanto sucesso que o autor planeja abrir um museu, de verdade, em Istambul. Pelo que vi na internet, o espaço ainda não foi inaugurado.

Mais não conto para não estragar o final. Mas posso dizer que, não bastasse a história tão possível quanto fantasiosa, a obra é uma aula de literatura. Que venham “Snow” e “My name is Red”. Mas, honestamente, depois deste livro, acho que nem Pamuk consegue ser melhor que Pamuk.

Para se apaixonar de vez, uma conversa com o autor que encontrei no Youtube:

Frida é fashion

“O vestuário é o mais eloquente de todos os estilos…

forma parte do próprio homem,

é o texto de sua existência, sua chave hieroglífica.”

Honoré de Balzac

Uma amiga querida me trouxe do México um presentão: o livro “El Ropero de Frida”. Nós duas temos em comum a paixão pela arte e ela pensou que o livro seria inspirador, mas não pelas pinturas de Frida. Pelos modelitos.

Adoro costurar. Boa parte do meu armário saiu da minha cabeça e da minha singela e guerreira máquina Singer. Passo horas escolhendo estampas. Até para decidir qual o zíper ideal eu demoro um tempão. Mas o prazer maior é estender o tecido no chão da sala, rabiscá-lo e ver nascer uma nova peça.

Não vou ficar aqui falando de linhas, agulhas e modelagens porque este é um blog sobre Nova York e sobre cultura. Mas este post tem um pouco de tudo isso. Na cidade mais estilosa do mundo, mas onde o preto segue reinando, as cores de Frida Kahlo iluminaram o dia. Frida levava para o armário a vibração de suas pinturas. Devo confessar que ela está longe de ser minha pintora favorita, mas as belas saias rendadas, as blusas de corte quadrado e os vários cintos de tecido me fizeram até olhar para a moça com mais carinho. O livro é uma bela pedida para quem gosta de moda, ou simplesmente, de arte.