Vanyamania: Tchekhov é pop

Leia o meu texto publicado hoje, no blog do Ela Digital, do jornal O Globo:

O texto foi escrito há mais de um século. Toda a história se passa em uma mesma casa, no interior da Rússia. Os personagens sofrem de tédio e solidão. Mas o público vibra. Quase simultaneamente, Nova York recebeu duas montagens de Uncle Vanya, uma prova de que Anton Pavlovich Tchekhov é, sim, um sucesso de audiência.

A primeira foi uma curta temporada no Festival do Lincoln Center, em que Cate Blanchet derreteu o coração dos críticos. Foram apenas dez sessões, todas esgotadas. Quem perdeu tem a chance de ver a montagem contemporânea do Soho Rep, dirigida por Sam Gold e em cartaz até 26 de agosto. O pequeno teatro, em formato de arena, torna as histórias dos personagens ainda mais próximas da realidade do espectador. O figurino é simples, assim como o cenário, e essa opção faz as ironias do texto saltarem.

Outro ator de Hollywood estrela o espetáculo: Michael Shannon interpreta o médico infeliz e conquistador. O único porém: os ingressos também estão esgotados. O jeito é ir para a fila pelo menos uma hora antes e torcer por alguma desistência.

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Nelson Rodrigues sem sotaque

O centenário do mestre Nelson Rodrigues está próximo e as homenagens, pasmem, chegaram a Nova York. Os brasileiros do Group.br apresentam A Serpente, a última peça do autor, dos dias 12 a 15 de julho, no Teatro Latea. Se você está se questionando como os americanos reagirão à ideia, saiba que os atores fizeram a mesma pergunta. Aliás, eles foram para as ruas da cidade investigar o que os yankees sabem do nosso teatro. O vídeo abaixo traz a resposta, não muito surpreendente…

Para apresentar Rodrigues à plateia novaiorquina, o texto foi mantido em português. A escolha não podia ser melhor. Seria, no mínimo, esquisito ver uma ópera de Wagner traduzida para o português, né? A gente não aceita as legendas? Então, vamos preservar o nosso nordestino-carioca favorito do jeito que ele queria. Bora lá! E levem os amigos americanos. Afinal, casamentos problemáticos, amor e traição são universais.

PS: Domingo, no Globo Notícia Américas, tem uma entrevista com uma das atrizes, que conta mais sobre essa homenagem. É logo depois do futebol!

 

 

The Mountaintop

Eu adoraria usar o blog para escrever sobre como é maravilhosa a peça The Mountaintop, em cartaz na Broadway, com Samuel L. Jackson interpretando Martin Luther King. Infelizmente, não poderei fazê-lo. Para começo de conversa, se eu disser que entendi metade do texto, estou tentando me enganar. Angela Bassett fala com um sotaque do Sul tão carregado que, mesmo para os americanos, a compreensão é difícil. Além disso, a interpretação caricata que ela faz da camareira impede que a gente se apegue ao personagem.

A autora da peça queria desmitificar o reverendo King. Só que como é que a gente desmitifica o maior mito do século passado? Dizendo que ele tem chulé? Que é mulherengo? Abrindo o espetáculo com ele se dirigindo ao banheiro para um xixizinho básico? Meio complicado. Pode ser conservadorismo meu, mas os momentos mais bonitos são aqueles em que ele discursa ou tenta negociar com Deus, argumentando que  há motivos de sobra para deixa-lo entre nós um pouco mais.

O fim da história, a gente conhece. No Hotel Lorraine, em Memphis, onde se passa todo o espetáculo, Martin Luther King é assassinado. A peça termina com um passeio frenético pelo futuro que ele não testemunhou, mas que só aconteceu por causa dele. Talvez Dr King não mereça um perfil tão humano. Talvez ele mereça, e nos ajude a lembrar que na nossa pequenice de cada dia, podemos fazer alguma coisa pelo mundo. Mas que eu preferia seguir sem refletir sobre o chulé deste ídolo, ah, isso não dá para negar.

O melhor da semana

Tem muita coisa boa para fazer em Nova York. Todos os dias, em qualquer estação. Mas quando chega o verão, não dá para negar, a oferta é tão grande que a gente fica até confuso. Por isso, quando a sexta-feira vai se aproximando, costumo fazer uma listinha para controlar meu desespero. Divido com vocês a desta semana, com algumas das coisas mais legais para fazer por aqui. Fora o Tom Zé, todas as outras dicas são de graça! Não tem desculpa para ficar em casa.

Segunda: TropiChat, com o diretor de cinema brasieiro Cao Guimarães. Será às 6pm, no Americas Society (680 Park Avenue).

Terça: Tom Zé, no Lincoln Center. Às 8pm, no Alice Tully Hall.

Quarta: Ópera no Central Park. La Bohéme da New York Grand Opera, na concha acústica. De graça, às 7h30pm.

Quinta: Broadway in Bryant Park traz apresentações com atores de “The Addams Family”, “Billy Elliot”, “Memphis” e “Rock of Ages”. Às 12h30.

Sexta: Henry V no Battery Park. Começa às 7pm e é parte do River to River Festival, que tem várias outras coisas bacanas.

Durante toda a semana: Premiere Brazil! 2001, no Moma. Seleção de filmes brasileiros já tradicional na Big Apple.

Até dia 31 de julho tem “The Seagull“, de Chekhov, no Riverside Park (w 89th Street na Riverside Drive).

Para esquentar, uma das minhas favoritas de Tom Zé num clipe simpático que achei no YouTube.