Já que estamos falando em Matisse…

Era uma vez duas irmãs podres de rica que adoravam viajar pelo mundo e gastar, gastar, gastar. A mais velha, Claribel, formou-se médica, mas depois de um período vivendo na Alemanha, em plena Primeira Guerra, desistiu da profissão. Esther, a caçula, cuidava da casa. Até que se envolveu (amorosamente, dizem por aí), com Gertrude Stein e tomou gosto pela arte.

Além de vestidos, pérolas e tapetes, as irmãs começaram a colecionar arte. Muita arte. São mais e 500 Matisse, mais de 100 Picasso e por aí vai. Fale um grande pintor e certamente ele estará na coleção. Os primeiros quadros, elas adquiriam quando os artistas ainda eram desconhecidos e viviam com grande dificuldade. “Tive que ter muito peito para pintar o que pintei naquela época. Mas mais coragem ainda teve quem comprou minhas obras”, disse Matisse.

Os apartamentos das duas irmãs eram repletos de quadros, do chão ao teto, em todos os cômodos, inclusive nos banheiros. Num dado momento tiveram de comprar outro apartamento. Elas decidiram que quando morressem, todos os quadros seriam doados, juntos, para um grande museu. Eram de Baltimore e afirmaram, em testamento, que se a cidade já tivesse espírito para compreender a arte, que ficasse com tudo. Caso contrário, deveriam procurar outra instituição americana.

Em 1949, quando morre Esther (vinte anos depois da morte de Claribel), Baltimore já estava pronta. O Baltimore Museum of Art recebeu, ainda, $ 400 mil para construir uma extensão, necessária para comportar tantas obras.

Até dia 25 de setembro deste mês, o Jewish Museum, em Nova York, recebe parte significativa da Cone Collection. Além de quadros deslumbrantes (são três odaliscas do Matisse, Gauguin, Van Gogh, Picasso, Renoir, entre outros), é interessante entender o que passava pela cabeça das irmãs (na foto ao lado com Gertrude Stein) e como o gosto delas foi mudando, se desenvolvendo, ao longo dos anos e das experiências de vida. Cheguei na hora em que começava uma visita guiada. Se você tiver a mesma sorte, vale a pena acompanhar.

 

A capela do amor

Eles se conheceram por acaso, em Vence, na França. Ele, já um senhor, precisava de um enfermeira que trocasse os curativos de uma cirurgia de tempos em tempos. Ela, um jovem sem grandes pretensões, escondeu o fato de que só havia cursado o primeiro ano em enfermagem e correu para ajudar. Ele se chamava Henri Matisse. Ela, Monique Bourgeois. A amizade entre os dois foi instantânea. Falavam sobre tudo, “de coração para coração”, como ela costumava dizer. A jovem chegou a posar para o pintor (a imagem abaixo é um dos resultados). Dois anos depois, Monique decide se tornar freira. Passa a se chamar Irmã Jacques Marie e vai viver no convento dominicano da cidade.

Matisse não se conformava com a decisão. Ainda assim, a amizade dos dois ficava a cada dia mais forte. Jacques Marie o visitava com frequência e as conversas seguiam o mesmo ritmo debochado de sempre. Numa delas, a freira disse que estava planejando construir uma capela dentro do convento e perguntou se ele ajudaria. Desenhou o modelo de um vitral e Matisse declarou: vou construir uma capela para o seu vitral!

Em 1947, o trabalho começou. Matisse foi repreendido por todos. Os fofoqueiros de plantão diziam que a relação dele com a freira era suspeita. Tratava-se de um amor platônico. Amigos próximos, como Pablo Picasso, questionavam o motivo de Matisse construir uma capela se não acreditava em Deus. “Por que não um mercado, onde as pessoas compram frutas, pelo menos?”, interrogava o espanhol.  ”Quando pinto, sou movido por uma força maior”, respondia o francês.

O fato é que, pouco a pouco, Matisse e Jacques Marie ergueram uma capela construída apenas pelo amor. Ali não reside uma demonstração de poder, influência ou mesmo a gratidão pela morte de soldados rivais, como vemos em tantas igrejas e monumentos mundo afora. A Chapelle du Rosaire de Vence, que para muitos é simplesmente a “Capela do Matisse”, guarda sua beleza na simplicidade que apenas um sentimento tão bonito poderia construir. É de verdade. Não ostenta, não se envaidece.

Matisse a considera sua “masterpiece”. Ele cuidou de tudo. Dos vitrais, das pinturas, da arquitetura, até das roupas dos padres. O resultado é mágico.

Se você ficou curioso, pode conhecer melhor a história em um filme curtinho que está instantâneo no Netflix. “A Model for Matisse”