Cidadão de onde?

Um dos artigos mais polêmicos que já li sobre a questão do imigrante (não apenas nos Estados Unidos, mas em todo o mundo) foi publicado na última sexta no The New York Times. Jacqueline Stevens, professora de ciência política na Northwestern University propõe não apenas a abolição da exigência do local de nascimento, mas a abertura irrestrita das fronteiras entre países. Para ela, o que faz o cidadão é a política do país, não o lugar de onde ele vem.

O argumento é questionado tanto pela direita, por motivos óbvios, quanto por esquerdistas que acreditam que uma medida do tipo causaria uma redução global de salários, além do esgotamento dos postos de trabalho em países mais ricos. Citando, inclusive, o brasileiro Eduardo Saverin, do Facebook, que recentemente renunciou à cidadania americana, Stevens é categórica: “precisamos de governos, não de Estados”.

É difícil chegar a uma conclusão apenas com a leitura do artigo (talvez o livro de Stevens, “States Without Nations: Citizenship for Mortals” seja um bom começo), mas é sempre bom ver opiniões instigantes sobre o assunto. Qual é a sua?

Clique aqui para ler o artigo no site do NYT.

Obama e os imigrantes

O governo Barack Obama anunciou uma novidade na semana passada que pode ajudar muito imigrantes em situação irregular. A ideia é que, quando se casam com americanos, eles não precisem mais deixar os Estados Unidos e ficar no país de origem, esperando o “waiver”, o perdão do governo. Alguns tinham que esperar até 10 anos para conseguir o benefício. Longe da família e do país que adotaram como casa.

Entendo quem vê com restrições a nova política administrativa, que não depende de aprovação do congresso para entrar em vigor. É pouco, principalmente para o governo que mais deportou na história americana. Um recorde que não condiz com o filho de um imigrante. Mas é bastante para a vida de milhares de pessoas e para alguém que passou quatro anos de mão amarradas por uma crise política, mais que econômica.

Vale lembrar que a novidade ainda não entrou em vigor. Por isso, quem se encaixa na lei não precisa – nem deve – se apressar. Quando a medida sair (alguns acham que isso acontecerá ainda este ano), o sonho dos papeis estará nas mãos. E sem precisar sair de casa.

Chegou a nossa vez

Fomos, por pelo menos quatro décadas, um país exportador de gente. Depois de séculos recebendo portugueses, africanos, holandeses, japonses, italianos, alemães, o Brasil passou a assistir ao fenômeno contrário. Nossos compatriotas buscando oportunidades além mar. Pode ter começado por influência de artistas e intelectuais que trouxeram imagens de um exílio desafiador, se impulsionado pelas novelas, virado realidade depois da década perdida. Onde e por que se formou a primeira grande onda de emigrantes, na primeira metade da década de 1980, ainda é motivo de controvérsia. O fato é que alguns poucos de nós construíram castelos, a maioria, uma vida digna, de classe média, e outros tantos penaram.

Agora a balança virou. Depois de sermos enxotados por britânicos e espanhóis, de ouvirmos de americanos que somos reponsáveis por ondas de desempregos, de trabalharmos sem 30 dias de férias ou vale refeição no Japão, voltamos a ser um país importador de gente. Nas últimas semanas, a chegada de haitianos a Brasiléia, no Acre, ganhou as manchetes de jornais brasileiros – em especial O Globo – e, seguidas vezes, do New York Times. Também deixou muitos brasileiros de cabelo em pé. Ouvi comentários preconceituosos que, poucos anos atrás, eram feitos a nosso respeito. Agora a bola está com a gente. Che facciamo, José?

O governo brasileiro deu um passo importante autorizando haitianos que estiverem em situação regular a levarem parentes para viver com eles. Cônguges, pais e filhos menores (ou solteiros com até 24 anos) estão liberados para entrar no país. A estimativa é que 4 mil hatianos tenham chegado ao Brasil nos últimos meses e outros 1,2 mil ainda estejam a caminho. Exigir a documentação dos imigrantes é correto. Mas contribuir para que eles consigam tê-la, é fundamental. O imigrante remodela a estrutura social do país. Fato. Mas a presença dele tende a enriquecê-la, e não o contrário.

Hoje, um editorial do Times abordava a necessidade de os Estados Unidos repensarem suas “políticas de imigração”. Dowell Myers sugere, aliás, que o país deixe de pensar por esse viés e adote “políticas para imigrantes”. Em vez de perguntar “onde estão os seus papeis”, que se pergunte “onde é sua aula de inglês?” Os americanos testemunham o processo oposto ao do Brasil. Pela primeira vez décadas, o país vê o índice de imigração chegar a zero. Ou seja, o número de pessoas que chegam ao país é mais ou menos equivalente ao de estrangeiros que abandonaram o sonho americano. É tolice pensar que isso trará mais empregos. Como mostra o editorial, o índice de latinos comprando casas cresce em uma proporção jamais vista entre os americanos. Espertos são os que abraçam as diferenças. Se não em nome da humanidade, que seja em nome do capitalismo.

Visita lucrativa

Depois de serem peça fundamental na recuperação do mercado imobiliário da Flórida, os brasileiros são oficialmente os queridinhos do comércio americano. Hoje o The New York Times trouxe uma reportagem sobre lobby que a U.S Chamber of Commerce, unida a empresários, faz em Washington, sugerindo o fim da exigência de visto de turismo para os brazucas.

Em Miami, Dolce & Gabana, Hublot e até a Target querem funcionários que falem português. O Giraffas abriu uma filial na cidade do sol, com direito a pão de queijo e tudo. Aqui em Nova York não é diferente. Somos o terceiro povo que mais visita a cidade, mas primeiro no ranking dos que mais gastam. Estamos falando de turistas, sim. Mas cruzar fronteiras é uma maneira de aquecer a economia não apenas por isso.

Se somados ao redor do mundo nós, imigrantes, já formamos uma população maior que a brasileira. Somos 215 milhões de imigrantes de primeira geração. Trata-se de um grupo que promove redes entre nações, tornando mais fáceis o intercâmbio cultural e o econômico. Com a internet, as redes sociais, o skype, essa troca de informações se torna cada vez mais fácil e intensa. E o volume de dinheiro que ela promove acompanha a tendência.

A questão do crédito, o alerta de uma bolha prestes a explodir e a ausência de uma cultura de poupança entre os brasileiros são preocupantes. A diminuição dos preços das commodities e o desaceleramento mundial empurrado pelo double dip que enfrentamos são motivos suficientes para deixar qualquer cidadão de orelha em pé.

Mas talvez em vez de fechar fronteiras, como tentam fazer alguns países europeus, ou empunhar bandeiras contra a chegada de imigrantes, como fazem tantos republicanos por aqui, seja a hora de os países “desenvolvidos” fazerem as contas, pôr na ponta do lápis, e entenderem que o movimento nas fronteiras não traz prejuízos, violência ou desemprego. Traz uma nova estrutura mundial, tanto econômica quando cultural, capaz de produzir a riqueza que pode ajudar essas nações a saírem do buraco. Foi o que aconteceu com o mercado imobiliário de Miami.

Além do artigo do Times, o assunto foi reportagem de capa da The Economist pouco mais de um mês atrás. O livro Exceptional People, lançado este ano, traça uma perspectiva histórica do assunto para provar que migrações são tão antigas quando a humanidade e jamais foram responsáveis pela derrocada de nenhum povo. Muito pelo contrário.

Até a China, que sempre se fechou aos estrangeiros, já se deu conta disso. Em 2009, 100 mil forasteiros viviam em Xangai. E o número só aumenta. Profissionais qualificados, acadêmicos, empreendedores, agora são bem vindos, venham de onde vierem. E como nos últimos anos muitas das boas lições que o mundo tenta copiar vieram da China, talvez seja a hora de pensar em mais essa.

 

Parabéns, seu Bernando

Cerca de um ano e meio atrás (gente, como passa rápido) estávamos em Mesa, no Arizona, à procura de um brasileiro de 108 anos. Ele viu o Titanic afundar, testemunhou duas guerras mundiais e, nossa, quantas Copas do Mundo! Como eu, seu Bernando nasceu no Espírito Santo. Foi trazido para os Estados Unidos ainda criança. Com medo de que o filho fosse vítima de bullying (naquela época, certamente isso não existia, mas, vá lá), o pai dele preferiu não permitir que ele falasse português.

Seu Bernando nos disse que não era tarde e iria aprender a língua. Além de um Planeta Brasil, fizemos uma reportagem com ele para o Jornal Hoje. O vídeo não está mais lá, mas ainda restou o texto. Seu Bernando é tão saudável, tão inteiro, que virou consultor de nutrição. É cheio de manias e, devo confessar, não é o ser humano mais bem humorado que conheci. Longe disso. Mas é preciso dar a mão à palmatória. Seu Bernando segue gatão. E hoje, Dinorah, que também conhecemos no Arizona, escreveu aqui no site dizendo que ele vai completar 110 anos este ano. Deixo aqui meus parabéns!

José, para onde?

Não é nenhuma história que eu não tenha ouvido. Na verdade, já ouvi centenas parecidas. Sem exagero. Desde que cheguei a Nova York meu trabalho de jornalista se aliou ao de antropóloga na tentativa de entender melhor, ver de perto, a realidade dos imigrantes brasileiros. Os indocumentados sempre chamam a atenção. Primeiro, porque são a maioria. Os cálculos não são oficiais, mas a gente sempre ouve falar que em torno de 80% dos brasileiros que vivem nos Estados Unidos atualmente estão sem visto. Sempre achei que essas pessoas eram extremamente corajosas. Hoje, acho que não mais que isso. São heróis da resistência.

Como seria passar cada diazinho da sua vida pensando que alguém pode te tirar de casa? Te separar da sua família? Ou simplesmente sendo uma pessoa correta e tento que conviver com a sensação terrível de que se está fazendo algo errado? O texto de José Antonio Vargas, jornalista filipino que ganhou um prêmio Pulitzer, na revista do New York Times deste fim de semana é, ainda que familiar, emocionante. Como imaginar que alguém que conquistou tanto possa ser obrigada a viver cada dia como se criminoso fosse?

O relato de Vargas é brutal. Não são as grandes coisas, mas as pequenas privações de cada dia que o fazem mais real e próximo de cada um de nós. Imagine ganhar uma viagem com tudo para para a Suíça e dizer não? Imagina mentir para todos os colegas de trabalho, com medo de ser demitido? Agora, imagine jamais ter um relacionamento mais sério para evitar ter de contar ao outro seus segredos? É assim que milhões de pessoas de carne, osso e alma, como eu você, vivem todos os dias. José Antonio Vargas resolveu falar. Talvez por causa dele o debate sobre o DREAM Act, e tantos outros projetos de lei, volte ao centro do picadeiro.  Tomara.