Merce e eu

Ele foi um dos primeiros a me mostrarem o privilégio que é viver em Nova York. Eu estava na cidade havia quatro meses e minha mãe veio me visitar. Nem conhecia o grupo mas, por recomendação de um amigo, comprei dois ingressos para “Merce Cunningham at 90″. Fomos ao BAM ver o que seria uma das últimas apresentações da Merce Cunningham Dance Company com ele vivo. Até escrevi um post sobre isso no finado prateconfundir.

O espetáculo, como de costume, foi inovador, de tirar o fôlego. No final, para receber os aplausos, Cunningham foi, de cadeira de rodas, à beira do palco. Ovacionado, acenou para a público, mandou beijos e se retirou. Uma das cenas mais emocionantes que já vi. Roteiristas dificilmente conseguem levar uma plateia inteira às lágrimas com tanta naturalidade quanto o talento.

Três meses depois, Cunningham se despediria para sempre. Ele morreu em julho de 2009, no meu sétimo mês em Nova York quando, graças a ele, eu já havia entendido que esta cidade é para ser respirada até onde o pulmão aguentar.

Duas semanas atrás, voltamos ao BAM (que acabou se tornando uma das nossas casas de espetáculos favoritas) para ver Cunningham. Era um espetáculo da “Legacy Tour” com a não-música de John Cage e figurinos de Jasper Johns. Uma coreografia exaustiva para nós, vítimas do excesso de estímulos do século XXI, mas certamente revolucionária nos anos 40, quando ela foi criada.

Ficamos tão apaixonados pela obra e vida de Cunningham que procuramos saber mais. Entre documentários e livros, assitimos a “Cage/ Cunningham”, sobre a colaboração entre os dois. Fomos ao “project” no West Village onde ele viveu e a companhia tem sede (a foto ao lado, tirada do celular, mostra a entrada). Sim, é uma bobagem. Coisa de fã. Mas serviu para, mais uma vez, nos despertar um respeito profundo pelo coreógrafo e por Nova York. Que cidade é esta que constrói um conjunto habitacional para abrigar seus artistas que estiverem passando por dificuldades financeiras? Merece ser palco de tantos momentos históricos.

Hoje, a Ilustrada, caderno de cultura da Folha de S. Paulo, traz uma belíssima matéria de capa sobre a despedida da companhia. Ainda dá tempo de assistir aos últimos movimentos de bailarinos treinados por ele. Pra quem não está na cidade ou não conseguir ingressos, a reportagem de Francisco Quinteiro Pires dá um gostinho do que será a despedida. Quem sabe a partir dela Cunningham não desperta nos leitores a mesma magia que despertou em mim?