A melhor coisa de viver em Nova York é ter o mundo inteiro no espaço de uma ilha. Hoje, domingo de páscoa, bem que pensei em ir a uma das igrejas da vizinhança. Não consegui, mas vi as ruas cheias de gente saindo delas. Não é que à noite, voltando para casa de metrô, a igreja veio até nós? Pelo menos o coral do Harlem estava lá. Ninguém pediu dinheiro, nada. Era só mesmo para celebrar. Viva NY. Boa páscoa a todos!
Nova York jamais seria Nova York sem o metrô. Pode ser sujo, barulhento, mas o fato é que sem as 468 estações cortadas por trens (os expressos são o orgulho da cidade) seria muito mais difícil viver. Já pensou que maravilha sua vida se você não precisasse mais de carro? Aqui é assim. E, pode ter certeza, esse luxo é melhor do que você imagina.
O serviço funciona 24 horas por dia, sete dias por semana e liga os cinco boroughs por mais de mil quilômetros de trilhos. Nessas viagens, a gente é acompanhado pela voz do condutor. Alguns são divertidos, outros bravos, outros breves. Certo dia, a caminho do Brooklyn debaixo de uma chuva daquelas, ele anunciou: “não importa o seu destino, o caminho é a felicidade”. Demais.
Mas apenas uma voz é universal nessas viagens. Hoje, graças a um pequeno artigo no The New York Times, descobri que o gênio que nos diz para “stand clear of the closing doors” diariamente é Bernie Wagenblast. A voz é tão marcante que rendeu uma composição de Tom Zé durante a apresentação dele no Lincoln Center ano passado. “Vocês, novaiorquinos têm muita sorte. Todo dia ouvem essa poesia. “Stand clear of the closing doors”. Três aliterações. É beleza demais.”
Só que as frases de Wagenblast são um tanto limitadas. Então, o Times convidou o tenor do metrô para gravar outras, sugeridas pelos leitores. É das coisas mais geniais dos últimos tempos. Para quem mora/morou na cidade, ou apenas é apaixonado por aqui, é certeza de gargalhadas. “Cheap headphones” é um pérola. Divirtam-se!
Quando a gente vive longe de casa, tudo é motivo para comparações.
Vamos ao restaurante. O garçom te trata mal feito pica-pau. Basta para dizer que americano é estúpido e brasileiro é bacana. Mas se o troco vem certinho, também é o suficiente para acusarmos nossa pátria mãe de querer sempre levar a melhor e incensar a honestidade gringa.
Vamos ao banco. Não conseguimos pagar as contas de luz, tv a cabo, telefone. A caixa sequer entende do que estou falando. Aqui nos Estados Unidos, pagam-se boletos pela internet ou mandando um cheque pelo correio. Cheque? Pelo correio? Pois é. E se no Brasil há filas enormes, que obrigam o governo a estipular um tempo máximo para o atendimento bancário, aqui quase sempre as agências estão vazias.
Vamos ao metrô. Ele nos leva a qualquer lugar. No Brasil… Humpf! Em compensação, se encontram uma ratazana de 90cm passeando calmamente pela cidade, já apontamos nossos indicadores para a cidade mais suja do mundo.
Mas as discussões estremecem mesmo quando o assunto são o desastres naturais. É um tal de “pelo menos no Brasil não tem furacão” que vá dizer lá fora. Ficava danada da vida quando ouvia isso, mas acabo de me dar conta de que minha reação era porque vivo em Nova York. Aqui, sempre imaginei, estávamos a salvo. Até Irene ameaçar mostrar suas garras e todos os estereótipos e dificuldades de ser apátrida levantarem as manguinhas.
Irene deve chegar sem grandes perigos. Espero. Tudo indica que aqui será apenas uma forte tempestade. Só que o teto do meu quarto me apareceu com uma goteira que virou um buraco e – pasmem – a eficiência norte-americana não foi capaz de conter. No escritório do proprietário do apartamento, a secretária desligou o telefone na minha cara depois de sentenciar que só mandaria alguém para resolver o problema na segunda, quando Inês (ou Irene) é morta. “Temos outros 29 tetos com buracos, não vai dar tempo”. E blam com o telefone! Ligo para os bombeiros e tudo o que eles podem fazer é registrar uma reclamação contra o dono do apartamento, mas tapar o buraco que é bom, nada.
O jeito vai ser rezar para Irene chegar de bom humor, com Caetano Veloso entoando uma dança da não-chuva. E, pelo menos este fim de semana, dizer que bom mesmo é o Brasil, onde não há furacão e tem sempre um vizinho disposto a te ajudar a tapar a goteira.
O transporte público é o resumo de uma sociedade. A cidade funciona ou não de acordo com a disponibilidade dele; as pessoas chegam aonde querem, quando querem, se ele quiser; as relações se desenvolvem por causa dele. E nele.
A foto aí do lado foi tirada no último fim de semana e mostra um pouco da beleza desta cidade. Quando vim morar em Nova York, um conhecido nuvem-negra me recomendou que colocasse a simpatia no bolso e encarasse a cidade com toda a agressividade que eu tivesse. Nova York, ele me explicou, era uma selva. Eu precisava reagir aos avanços dos brutamontes que viviam aqui com unhas e dentes. Logo que desembarquei, tive várias surpresas. Perdida na rua, era rapidamente abordada por pessoas querendo me ajudar. Os vizinhos me davam bom dia (isso é privilégio do Harlem, tenho que reconhecer) e em alguns estabelecimentos eu era muito bem tratada. Em outros, nem tanto, mas nada muito diferente de Copacabana ou da Vila Madalena.
Os amigos que vivem aqui dizem o mesmo. A cidade não é nada do que lhes haviam dito. As pessoas não são agressivas e, se forem, basta responder educadamente para deixar o malandro mau humorado de calças curtas. As pessoas ficaram mais gentis? Foi o 11 de setembro? Não sei. Sei apenas que quando passei pelo ônibus e vi, através do vidro este labrador lindo, o motorista fez questão de abrir a porta para eu conversar com o cão-guia. Feliz da vida, descolou um sorrisão e começou a elogiar o bichinho, o dia, a cidade.
Hoje, voltando para casa de metrô, conheci Cedric. Professor de música e gerente de um bar de tapas, em downtown, ele era a cara do escritor Teju Cole. Perguntei se era ele. “Não, não sou eu. Ms como é o nome dele? E do livro dele? Você recomenda?” A conversa, foi da 14th Street até a 110th. Rendeu algumas indicações de livros (eu falei de Museu da Inocência e ele de The Cloud Atlas) e um aperto de mão. Descobrimos que somos vizinhos e esperamos nos reencontrar em mais um metrô, qualquer dia. Pois é assim que se constrói uma cidade.
Já declarei inúmeras vezes meu amor por Nova York. Não canso de falar e, juro, ele aumenta a cada dia. É mesmo a melhor cidade do mundo. E ninguém nunca conseguiu me provar o contrário. Hoje a amiga Renata Chiara, que morou aqui por quase sete anos, postou uma matéria do Tempos de Nova York sobre os barulhos da cidade. Vale conferir no site deles, onde estão as gravações, por exemplo, da chegada do metrô na estação da Times Square.
O metrô, as arrancadas dos táxis, o caminhão que raspa a neve das ruas, as conversas aos berros nas ruas do Harlem são, para mim, parte fundamental do imaginário de Nova York. Mas a novidade do momento tem sido os motoqueiros do Bronx, que passam pela minha rua todo domingo de manhã. A polícia bem que tenta pegar a turma, mas eles dão um balaio… Entram na contra-mão, empinam as motos, um escândalo. Vou tentar filmar um dia para mostrar aqui.
Uma cidade que a cada dia tem novas atrações e até novos barulhos tem mesmo que ser amada!
Sempre ouvi falar que Nova York era uma das cidades mais caras do mundo. Pelo visto, as coisas mudaram. Sim, o aluguel aqui continua uma fortuna. Sim, tem restaurantes em que seu estômago, olhos e coração juntos não seriam suficientes para pagar a conta. Mas em que lugar do mundo você anda de ponta a ponta, de metrô, sem precisar de preocupar com a violência ou com o estacionamento, pagando apenas $ 104,00 por mês? Pode andar à vontade, passar o dia roncando num trem meio sujinho, mas com ar condicionado. O valor não muda! Não é à toa que tem até música declarando amores pelo Metrocard…
Eu já vinha sentindo a diferença, mas achei que fosse por causa dos incríveis sites de deals que andei descobrindo. Leila e Andres, um casal de amigos daqui (ela iraniana, ele colombiano), conhecem como poucos esses grandes negócios e me passaram várias dicas. Audience Extras, Pulsd (esse foi dica da Ju Dorna), Bloomspot, Groupon. Em todos eles você encontra serviços e produtos a preços baixos.
Fora tudo isso, Nova York saltou da 8a, em 2009, para a 27a cidade mais cara do mundo! Olha que maravilha! Paris, Londres, São Paulo, Hong Kong, Milão, Tel Aviv. Todas são mais salgadas que a grande maçã. O Rio ficou só duas posições abaixo! Para quem está curioso, a cidade mais cara deixou de ser Tóquio, que agora responde pela vice-liderança. Luanda, capital da Angola, está lá na frente. E não tem Metrocard.