Trayvon Martin e o radicalismo

A morte de Trayvon Martin trouxe uma série de questionamentos e tornou claras as contradições deste país. Os americanos têm um presidente negro (“Trayvon poderia ser meu filho”, disse Obama), mas ainda digladiam com um racismo tão instrínseco que há quem alegue se sentir ameaçado por alguém desarmado, com uma garrafa de chá gelado e um pacotinho de skittles na mão, somente porque esse alguém tem a pele escura. E policiais aceitam a desculpa, mesmo que seja completamente inverossímel uma pessoa que teme pela própria vida perseguir o seu possível algoz.

Por trás de tudo isso está uma lei esquisita, a Stand Your Ground law, que permite que você atire em alguém quando se sentir ameaçado e fique imune à prisão. Algo como uma legítima defesa que de legítima não tem nada. Na coluna de hoje de Paul Krugman, no New York Times, ele sugere que quem está por trás disso é uma organização de extrema direita chamada American Legislative Exchange Council. A ALEC é discreta, mas extremamente influente. Teria escrito e conseguido a aprovação de mais de 50 projetos de lei na Virgínia. Muitos que promovem a exclusão étnica e racial, ameaçam o meio ambiente e privatizam instituições fundamentais para a sociedade, como colégios públicos bem sucedidos.

O grupo se mune do mesmo discurso de sempre: quanto menor o Estado, melhor e quanto mais livre o mercado, melhor. É bom ficar de olho. Nem todas as instituições radicais americanas gostam tanto de holofotes como a National Rifle Association. Muitas agem quietinhas, investindo em lobby, e chegam bem mais longe.

Pé Sujo em NY – Num Pang

Chegamos ao meio da nossa semana cheios de saúde! E hoje vamos desfrutar a maravilhosa culinária do Camboja! Aliás, só um parêntesis. Depois que os pauteiros do New York Times entraram no meu blog e viram o post sobre o Grade Pending, resolveram entrevistar chefs de vários restaurantes que questionaram a classificação por letras. Hoje o prefeito Michael Bloomberg defendeu as notas. (Como é bom ser jovem e ter a ilusão de que o mundo presta atenção na gente e nós o fazemos girar. Lindo isso)

Agora, voltemos ao nosso pé sujo do dia. E aguardem. Já já ele estará na seção de gastronomia da New Yorker. hehehehe… O Num Pang é um velho conhecido dos novaiorquinos e se aparecer em uma dessas revistas, certamente não é por minha causa. A culpa é do melhor sanduíche da cidade: Roasted Cauliflower ($7,00). Tem também o de catfish/ bagre ($7,50) e o campeão na preferência dos carnívoros: Pulled Duroc Pork ($7,75). Como eu já havia dito, no post sobre o Red Rooster, sou especialista em milho. E posso garantir que é daqui o melhor da cidade. Por apenas $2,50, você tem garantida uma experiência transcendental. Para acompanhar, suco de melancia com pedaços da fruta ($3,50). O único porém é a fila. Como a cidade já sabe que o lugar é incrível, você acaba tendo de esperar um bocadinho, a menos que vá em horários alternativos, como no meio da tarde.

O Num Pang fica na 21 E 12th Street. Uma ótima pedida para quem estiver passeando pela Union Square. Aproveitando, passeie livre por essa região. Vá até a Strand, descubra  livros raros por uma pechincha, e aproveite para dar um pulinho em uma loja maluca ali do lado. A Forbidden Planet é esquisitíssima, cheia de bonecos e acessórios de personagens de quadrinhos. Eu aproveitaria e seguiria pela University Place até chegar à Washington Square. Além de ver a praça linda onde Michelle Pfeiffer e George Clooney fizeram as pazes em “One fine day” e Harry e Sally passaram ao chegarem a Nova York, você pode dar uma passadinha na Grey Art Gallery, que sempre tem exposições bacanas. Até dia 31 de março ela abriga uma super especial, com a obra de Jesús Rafael Soto. Quem não conhece a obra dele não deve perder a oportunidade. Veja abaixo o que esse gênio faz em um vídeo que fiz na última exposição dele por essas bandas.

 

Visita lucrativa

Depois de serem peça fundamental na recuperação do mercado imobiliário da Flórida, os brasileiros são oficialmente os queridinhos do comércio americano. Hoje o The New York Times trouxe uma reportagem sobre lobby que a U.S Chamber of Commerce, unida a empresários, faz em Washington, sugerindo o fim da exigência de visto de turismo para os brazucas.

Em Miami, Dolce & Gabana, Hublot e até a Target querem funcionários que falem português. O Giraffas abriu uma filial na cidade do sol, com direito a pão de queijo e tudo. Aqui em Nova York não é diferente. Somos o terceiro povo que mais visita a cidade, mas primeiro no ranking dos que mais gastam. Estamos falando de turistas, sim. Mas cruzar fronteiras é uma maneira de aquecer a economia não apenas por isso.

Se somados ao redor do mundo nós, imigrantes, já formamos uma população maior que a brasileira. Somos 215 milhões de imigrantes de primeira geração. Trata-se de um grupo que promove redes entre nações, tornando mais fáceis o intercâmbio cultural e o econômico. Com a internet, as redes sociais, o skype, essa troca de informações se torna cada vez mais fácil e intensa. E o volume de dinheiro que ela promove acompanha a tendência.

A questão do crédito, o alerta de uma bolha prestes a explodir e a ausência de uma cultura de poupança entre os brasileiros são preocupantes. A diminuição dos preços das commodities e o desaceleramento mundial empurrado pelo double dip que enfrentamos são motivos suficientes para deixar qualquer cidadão de orelha em pé.

Mas talvez em vez de fechar fronteiras, como tentam fazer alguns países europeus, ou empunhar bandeiras contra a chegada de imigrantes, como fazem tantos republicanos por aqui, seja a hora de os países “desenvolvidos” fazerem as contas, pôr na ponta do lápis, e entenderem que o movimento nas fronteiras não traz prejuízos, violência ou desemprego. Traz uma nova estrutura mundial, tanto econômica quando cultural, capaz de produzir a riqueza que pode ajudar essas nações a saírem do buraco. Foi o que aconteceu com o mercado imobiliário de Miami.

Além do artigo do Times, o assunto foi reportagem de capa da The Economist pouco mais de um mês atrás. O livro Exceptional People, lançado este ano, traça uma perspectiva histórica do assunto para provar que migrações são tão antigas quando a humanidade e jamais foram responsáveis pela derrocada de nenhum povo. Muito pelo contrário.

Até a China, que sempre se fechou aos estrangeiros, já se deu conta disso. Em 2009, 100 mil forasteiros viviam em Xangai. E o número só aumenta. Profissionais qualificados, acadêmicos, empreendedores, agora são bem vindos, venham de onde vierem. E como nos últimos anos muitas das boas lições que o mundo tenta copiar vieram da China, talvez seja a hora de pensar em mais essa.

 

Davi X Golias

No início de dezembro, o The New York Times publicou uma série de três reportagens sobre a morte do jogador de hockey dos Rangers, Derek Boogaard, aos 27 anos. “A Boy Learns to Brawl“, “Blood on the Ice” e “A Brain ‘Going Bad’” são o resultado de seis meses de trabalho do jornalista John Branch. Ele mostra a trajetória do jogador, de menino apaixonado por esporte, a vítima fatal de C.T.E (encefalopatia traumática crônica).

Boogaard não é o primeiro e, infelizmente, não será o último atleta e morrer em consequência de seguidas pancadas na cabeça. O caso dele, no entanto, me impressionou mais porque eu desconhecia as regras do hockey. Assisti a alguns vídeos dele parando o jogo, lançando as luvas ao chão, e dando início a uma selvagem luta de box, sob olhares atentos dos juízes e insanos da torcida. Tudo é parte do jogo, da tradição. E o povo adora. O filme Slap Shot (intantâneo no Netflix até o dia 26 deste mês), considerado um clássico pelos americanos, mostra com primor essa loucura.

No início do ano, eu e o cinegrafista Francisco Quinteiro Pires fomos até Boston conhecer a universidade onde os pesquisadores estudam a C.T.E. Os pedidos por mudanças nas regras dos esportes (hockey, futebol americano e até basquete anunciaram novidades, desde então) vinham de médicos, não de atletas. Pessoas acostumadas a olhar cérebros encolhidos, danificados por anos de dedicação à vitória. Acostumadas a ver casos de depressão, demência, suicídio. Nossa reportagem foi ao ar no Esporte Espetacular e fico impressionada ao saber que, tantos meses depois, apenas poucas alterações aconteceram. Talvez um passo importante para mudanças efetivas seja nós, fãs de esporte, nos informarmos.

Você não está só!

Descobri que não sou a única que entra em pânico quando o verão chega em Nova York. É tanta coisa incrível para fazer ao mesmo tempo que o grande dilema é fazer tudo caber no espaço de 24 horas. Caramba, por que os dias não são mais compridos no verão? Bem que o congresso americano podia pensar nisso…

Enquanto isso não acontece, me consolo com o fato de saber que não estou só nesse dúvida. Os críticos do New York Times também acham impossível apontar apenas um programa. Mas eles toparam o desafio e o resultado está no jornal deste sábado. Vale a pena ficar atento às dicas dessa turma. Afinal, num dia em que o uni-duni-tê não funcionar, talvez o Times funcione!

Entre os indicados em música, está o show de Tom Zé, amanhã. Vamos?

Um brasileiro no Met

Sim, eu sei, a foto está uma droga. Mas foi o máximo que meu celular conseguiu registrar da histórica noite de ontem. O Summer Stage do Central Park recebeu algumas estrelas da Metropolitan Opera. E também um estreante. O brasileiro Atalla Ayan fez sua primeira apresentação na companhia de ópera mais importante do mundo. Algo raro, visto que o rapaz tem apenas 25 anos. Foi de surpresa. Ayan não estava escalado para o recital de ontem à noite. Substituiu, de última hora, o tenor Dimitri Pittas, que ficou doente.

A voz do rapaz é daquelas que emocionam quem entende do assunto e quem nunca ouviu ópera. Preciso e emotivo, forte e doce, Ayan deixou a plateia em extase. E nós, brasileiros corujas, orgulhosos. Mais bacana ainda é saber da história do jovem. Ele nasceu em Belém. Vem de família muito pobre. A mãe, para quem ele telefonou pouco depois de deixar o palco, anda vive no Pará. Como o rapaz aprendeu a cantar daquela maneira e em cinco idiomas? Não faço a menor ideia. Até mesmo o empresário dele tem dificuldades de explicar.

Hoje, no New York Times, o texto sobre a apresentação o comparava ao jovem Plácido Domingo (a foto aí do lado é do jornal. Eu não podia deixar vocês sem verem nadinha do nosso herói). “Uma achado”, cravou o jornal. O melhor é que teremos mais uma chance de ver o brasileiro prodígio. Ayan canta amanhã, quarta, novamente no Summer Stage. Desta vez com uma paisagem ainda mais bonita: a Brooklyn Bridge. Imperdível.

Um pedacinho do texto de Allan Kozinn para o Times:

“Mr. Ayan, a Brazilian tenor who had been a participant in the Met’s Lindemann Young Artist Development Program, filled in at the last minute for Dimitri Pittas, who was ill, and will sing again on Wednesday, when the program is repeated in Brooklyn. He is a find: Young and trim, he has a warm, rounded tone with a quality that calls to mind the young Plácido Domingo, and he gave powerful readings of arias from Gounod’s “Roméo et Juliette” and “Faust” and Verdi’s “Traviata,” as well as a knockout “Che gelida manina” from “La Bohème.”

José, para onde?

Não é nenhuma história que eu não tenha ouvido. Na verdade, já ouvi centenas parecidas. Sem exagero. Desde que cheguei a Nova York meu trabalho de jornalista se aliou ao de antropóloga na tentativa de entender melhor, ver de perto, a realidade dos imigrantes brasileiros. Os indocumentados sempre chamam a atenção. Primeiro, porque são a maioria. Os cálculos não são oficiais, mas a gente sempre ouve falar que em torno de 80% dos brasileiros que vivem nos Estados Unidos atualmente estão sem visto. Sempre achei que essas pessoas eram extremamente corajosas. Hoje, acho que não mais que isso. São heróis da resistência.

Como seria passar cada diazinho da sua vida pensando que alguém pode te tirar de casa? Te separar da sua família? Ou simplesmente sendo uma pessoa correta e tento que conviver com a sensação terrível de que se está fazendo algo errado? O texto de José Antonio Vargas, jornalista filipino que ganhou um prêmio Pulitzer, na revista do New York Times deste fim de semana é, ainda que familiar, emocionante. Como imaginar que alguém que conquistou tanto possa ser obrigada a viver cada dia como se criminoso fosse?

O relato de Vargas é brutal. Não são as grandes coisas, mas as pequenas privações de cada dia que o fazem mais real e próximo de cada um de nós. Imagine ganhar uma viagem com tudo para para a Suíça e dizer não? Imagina mentir para todos os colegas de trabalho, com medo de ser demitido? Agora, imagine jamais ter um relacionamento mais sério para evitar ter de contar ao outro seus segredos? É assim que milhões de pessoas de carne, osso e alma, como eu você, vivem todos os dias. José Antonio Vargas resolveu falar. Talvez por causa dele o debate sobre o DREAM Act, e tantos outros projetos de lei, volte ao centro do picadeiro.  Tomara.