The Mountaintop

Eu adoraria usar o blog para escrever sobre como é maravilhosa a peça The Mountaintop, em cartaz na Broadway, com Samuel L. Jackson interpretando Martin Luther King. Infelizmente, não poderei fazê-lo. Para começo de conversa, se eu disser que entendi metade do texto, estou tentando me enganar. Angela Bassett fala com um sotaque do Sul tão carregado que, mesmo para os americanos, a compreensão é difícil. Além disso, a interpretação caricata que ela faz da camareira impede que a gente se apegue ao personagem.

A autora da peça queria desmitificar o reverendo King. Só que como é que a gente desmitifica o maior mito do século passado? Dizendo que ele tem chulé? Que é mulherengo? Abrindo o espetáculo com ele se dirigindo ao banheiro para um xixizinho básico? Meio complicado. Pode ser conservadorismo meu, mas os momentos mais bonitos são aqueles em que ele discursa ou tenta negociar com Deus, argumentando que  há motivos de sobra para deixa-lo entre nós um pouco mais.

O fim da história, a gente conhece. No Hotel Lorraine, em Memphis, onde se passa todo o espetáculo, Martin Luther King é assassinado. A peça termina com um passeio frenético pelo futuro que ele não testemunhou, mas que só aconteceu por causa dele. Talvez Dr King não mereça um perfil tão humano. Talvez ele mereça, e nos ajude a lembrar que na nossa pequenice de cada dia, podemos fazer alguma coisa pelo mundo. Mas que eu preferia seguir sem refletir sobre o chulé deste ídolo, ah, isso não dá para negar.