Cidadão de onde?

Um dos artigos mais polêmicos que já li sobre a questão do imigrante (não apenas nos Estados Unidos, mas em todo o mundo) foi publicado na última sexta no The New York Times. Jacqueline Stevens, professora de ciência política na Northwestern University propõe não apenas a abolição da exigência do local de nascimento, mas a abertura irrestrita das fronteiras entre países. Para ela, o que faz o cidadão é a política do país, não o lugar de onde ele vem.

O argumento é questionado tanto pela direita, por motivos óbvios, quanto por esquerdistas que acreditam que uma medida do tipo causaria uma redução global de salários, além do esgotamento dos postos de trabalho em países mais ricos. Citando, inclusive, o brasileiro Eduardo Saverin, do Facebook, que recentemente renunciou à cidadania americana, Stevens é categórica: “precisamos de governos, não de Estados”.

É difícil chegar a uma conclusão apenas com a leitura do artigo (talvez o livro de Stevens, “States Without Nations: Citizenship for Mortals” seja um bom começo), mas é sempre bom ver opiniões instigantes sobre o assunto. Qual é a sua?

Clique aqui para ler o artigo no site do NYT.

Pé Sujo NY – Tasty Hand-Pulled Noodles

Imagine um pé sujo bem sujo. Não. Eu disse sujo, sujo, sujo. Mais. Um daqueles que você jamais teria coragem de recomendar a ninguém. E só iria para não ser chamado de fracote. Pois eu tenho um amigo que teve a audácia de nos recomendar, acreditando que a gente era valente para valer. E para não decepcionar, fomos. Golaço.

O Tasty Hand Pulled Noodles (sim, este é o nome do restaurante, para vocês verem como a galera é ligada em marketing) já começa te desafiando pela localização. Fica no chamado “bloody angle” (não se chama ângulo sangrento à toa), aonde eu não iria à noite nem para provar que sou arretada. O apelido foi dado no começo do século por causa da quantidade de assassinatos que aconteciam no local. É de arrepiar. Um daqueles lugares onde, certamente, há porões onde tudo de mais perigoso acontece. Sabe “O Poderoso Chefão”? Só que em Chinatown. Entendeu, né?

Ainda do lado de fora, o segundo desafio. O lugar é tão especial que nem tem o grade do lado de fora. Lembra daquele sistema de notas da vigilância sanitária de que falamos aqui? Pelo menos quando estive lá, não havia nadica na porta (repare acima, a foto da fachada). Nem A, nem B, nem C, nem Grade Pending. Imagino que o fiscal da vigilância deva ter pensado que aquilo ser chamado restaurante era piada.

Mas acreditem em mim. Se vocês conseguirem vencer o medo, terão uma experiência incrível. Ontem o New York Times publicou um artigo sobre os chamados “thin places”. Resumindo, são lugares onde a gente se sente a pessoa mais feliz do mundo. É raro viver isso e ali, eu vivi. Da mesa (acho que são só quatro) você consegue assistir, por uma portinha, ao cozinheiro fazendo os noodles à mão. A massa é mesmo diferente de qualquer uma. Nunca comi nada parecido e depois de lá, tudo perdeu a graça. O radinho da Hello Kitty pendurado no balcão me vem à cabeça toda vez que pago vinte dólares em um prato que não chega aos pés daquele (que custa, em média, $7,50). Os vegetarianos estão indicados no cardápio. Se você não fala chinês, é só apontar.

Vale a pena sair de lá e andar sem rumo pela Doyers Street. Você vai ver filas de salões de beleza e barbearias, além da Nom Wah Tea Parlor, no mesmo endereço, na 13 Doyers Street, desde 1927. Só que já é mais arrumadinho, então não entra na nossa semana especial. De toda forma, vale a pena. Caminhando até o final da rua, você encontra diversas lojinhas fofas e uma igreja inusitada. Só faço questão de ressaltar: o gran finale da nossa semana ficou por último por um motivo. É coisa para iniciados. Não vá lá apenas porque deu vontade de comer noodles. Vá à procura de aventura. Caso contrário, melhor não arriscar, ou vão ficar me maldizendo por aí e eu estou muito jovem para acabar em um porão qualquer da Doyers Street.

Grade Pending

Quem mora em Nova York já deve ter percebido, mas muitos turistas jamais repararam. Todo restaurante da cidade tem um papel na porta com uma letra (A, B e, se o caso for dramático, C) ou um símbolo em que se lê “Grade Pending”. São as classificações da Vigilância Sanitária da cidade. O restaurante com nota A é excelente, tem uma cozinha com higiene exemplar. O B é mais ou menos. O C é terrível. O Grade Pending é para aqueles que receberam uma nota B ou C e preferiram deixar esse sinal enquanto aguardam para serem ouvidos por uma autoridade do departamento. O velho “tomou um chamado daqueles e não gostou”.

Resumindo: se você quiser comer nos limpinhos, vá nos A. Dê meia volta ao ver um Grade Pending e aceite um B se não quiser parecer exigente demais.

Quem não tem frescura encara qualquer um. Aliás, eu tenho dois amigos que preferem os Grade Pending, mais “roots”, segundo eles. Confesso que não sou das mais exigentes e costumo topar qualquer um. Até eu descobrir que no site da Vigilância Sanitária você consegue saber qual foi o motivo da nota. Aí meu mundo caiu. Que tal estar sentada à mesa e, pelo celular, ser notificada de que a comida que você irá deliciar em sete minutos está sendo preparada em uma cozinha “com presença de ratos, cocô de barata e pedaços dos animais”? Não, né?

Hoje o New York Times divulgou uma ferramenta mais amigável, em que os ratinhos são até bonitinhos. Você clica e consegue descobrir a nota dos restaurantes e o motivo, igualzinho no site da Vigilância, mas de um jeito mais simpático.

Muitas vezes eu desejo nunca ter descoberto a existência desses cartazes. Aliás, se estraguei sua relação de amor com algum restaurante da cidade, caro leitor, mil desculpas. Reconheço que às vezes é melhor ficar no escuro. Nesse caso, minha recomedação é que você entre nos restaurantes correndo, com o olhinho meio apertado. Foco no balcão, para não correr o risco de olhar para porta. Não veja o cartaz, não entre no site e seja feliz!

Falta de educação

Não é fácil entender o bafafá causado pela divulgação, hoje, dos dados sobre o desempenho individual de 18 mil professores de escolas públicas de Nova York. Pode parecer simples de qualquer lado que se olhe. Entre os que são a favor, o argumento é óbvio: queremos escolas melhoes e professores mais qualificados para os nossos filhos. Para a turma do contra, também: que tipo de avaliação é essa? Quem define um bom profissional? Além disso, como confiar em uma pesquisa que tem uma margem de erro tão controversa?

Na verdade, o buraco é bem mais fundo. Envolve o Departamento de educação, os governos estadual, federal e municipal, sindicatos, pais, alunos… Para quem quiser entender melhor esse cabo de guerra, duas boas dicas são o post de ontem do The New York Times, que traz detalhes sobre a polêmica desde o início, e o filme Waiting for “Superman”. O documentário de Davis Guggenheim (o mesmo de An Incoveninet Truth) traz depoimentos das partes mas tem seu trunfo nas histórias de familias de todo o país, atingidas diretamente por essa discussão. Vale a pena, principalmente, para quem tem a ilusão de que o sistema educacional americano é essa coca-cola toda. E o melhor: está instantâneo no Netflix.

Iowa: quem leva?

O dia amanheceu frio em Iowa. Ainda bem. Não fosse a ajuda da temperatura, o clima estaria beirando o insuportável. Em época de corrida eleitoral, os Estados Unidos passam por um fenômeno diferente do que assistimos no Brasil. A devassa à vida dos candidados inclui escândalos políticos, relacionamentos fora do casamento, religião. Herman Cain pediu para sair. Os que ficaram, ainda têm dois dias de provação. Terça-feira restará um na briga para derrubar o mais derrubável dos candidatos à reeleição na recente história dos Estados Unidos.

Newt Gingrich, que chegou a ser favorito, perdeu pontos pelos deslizes amorosos e por defender um tratamento mais humano aos imigrantes. Esse tipo de visão “progressista” é apedrejada de tal maneira que acaba dando lugar a um show de horrores, na busca pela aprovação dos consevadores. A assustadora propaganda de Rick Perry é um exemplo do que, na minha terra, faria muito caboclo corar de vergonha. Mas entre os republicanos faz sucesso.

Com Michele Bachmann praticamente sem chance, Perry, Gingrich e Rick Santorum se embolaram na terceira posição. Mitt Romney segue na liderança mas, segundo a Register’s Poll divulgada ontem, está praticamente em empate técnico com Ron Paul. Romney tem 24 pontos contra 22 de Paul e a margem de erro é de 4 pontos percentuais.

Por falar em show de horrores, cartas escritas há cerca de 20 anos por Ron Paul causaram alvoroço quando divulgadas, em meados de dezembro. Ele dizia, entre outras coisas, que portadores do vírus HIV deveriam ser impedidos de almoçar em restaurantes porque “AIDS pode ser transmitida pela saliva”. Chamou o Martin Luther King Day de “Hate Whitey Day” e disse, ainda, que a paz só voltou a reinar em Los Angeles quando chegou a hora de os negros buscarem seus benefícios do seguro social. Pelo visto, o alvoroço não foi grande o suficiente para fazer marola. Talvez tenha até alavancado a candidatura de Paul, que tem se recusado ferozmente a falar do assunto.

Romney foi retratado em perfis bastante completos pelo The New York Times e pela Time. Esta semana, a edição americana da The Economist traz um artigo de capa sobre quem seria o candidato ideal para os republicanos. A reportagem lembra que desde Franklin Roosevelt nenhum candidato à reeleição conseguiu vencer com um índice de desemprego tão alto. E ressalta a baixa popularidade de Barack Obama, na casa dos 40%.

O companheiro de partido de Romney, Newt Gingrich, disse recentemente que “Romney compraria as eleições, se pudesse”. Nos perfis mais recentes, ele é apontado como um homem com uma vida privada sem deslizes. Religioso, pai de família, formado em Harvard, herdeiro político de um antigo governador e, ele próprio, um ex-governador popular (e autor de medidas surpreendendetemente progressistas, como o Medicare) em Massachusetts. Já a conta bancária e as relações com Wall Street são repletas de controvérsias.

Em uma corrida tão apertada, em que nenhum candidato passou dos 25% nas últimas semanas, o jeito é esperar até terça-feira e brincar de fazer bolão. Meu palpite é que Romney vai levar a melhor e enfrentará Barack Obama nas eleições deste ano. E que ele virá mais conservador do que nunca. O show de horrores está só começando.