A capela do amor

Eles se conheceram por acaso, em Vence, na França. Ele, já um senhor, precisava de um enfermeira que trocasse os curativos de uma cirurgia de tempos em tempos. Ela, um jovem sem grandes pretensões, escondeu o fato de que só havia cursado o primeiro ano em enfermagem e correu para ajudar. Ele se chamava Henri Matisse. Ela, Monique Bourgeois. A amizade entre os dois foi instantânea. Falavam sobre tudo, “de coração para coração”, como ela costumava dizer. A jovem chegou a posar para o pintor (a imagem abaixo é um dos resultados). Dois anos depois, Monique decide se tornar freira. Passa a se chamar Irmã Jacques Marie e vai viver no convento dominicano da cidade.

Matisse não se conformava com a decisão. Ainda assim, a amizade dos dois ficava a cada dia mais forte. Jacques Marie o visitava com frequência e as conversas seguiam o mesmo ritmo debochado de sempre. Numa delas, a freira disse que estava planejando construir uma capela dentro do convento e perguntou se ele ajudaria. Desenhou o modelo de um vitral e Matisse declarou: vou construir uma capela para o seu vitral!

Em 1947, o trabalho começou. Matisse foi repreendido por todos. Os fofoqueiros de plantão diziam que a relação dele com a freira era suspeita. Tratava-se de um amor platônico. Amigos próximos, como Pablo Picasso, questionavam o motivo de Matisse construir uma capela se não acreditava em Deus. “Por que não um mercado, onde as pessoas compram frutas, pelo menos?”, interrogava o espanhol.  “Quando pinto, sou movido por uma força maior”, respondia o francês.

O fato é que, pouco a pouco, Matisse e Jacques Marie ergueram uma capela construída apenas pelo amor. Ali não reside uma demonstração de poder, influência ou mesmo a gratidão pela morte de soldados rivais, como vemos em tantas igrejas e monumentos mundo afora. A Chapelle du Rosaire de Vence, que para muitos é simplesmente a “Capela do Matisse”, guarda sua beleza na simplicidade que apenas um sentimento tão bonito poderia construir. É de verdade. Não ostenta, não se envaidece.

Matisse a considera sua “masterpiece”. Ele cuidou de tudo. Dos vitrais, das pinturas, da arquitetura, até das roupas dos padres. O resultado é mágico.

Se você ficou curioso, pode conhecer melhor a história em um filme curtinho que está instantâneo no Netflix. “A Model for Matisse”

One thought on “A capela do amor

  1. Belo post, e obrigada pela indicação do filme. Também considero a Capela do Rosário uma obra de arte genuína, com suas luzes dançantes e simplicidade elementar.

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