Chegou a nossa vez

Fomos, por pelo menos quatro décadas, um país exportador de gente. Depois de séculos recebendo portugueses, africanos, holandeses, japonses, italianos, alemães, o Brasil passou a assistir ao fenômeno contrário. Nossos compatriotas buscando oportunidades além mar. Pode ter começado por influência de artistas e intelectuais que trouxeram imagens de um exílio desafiador, se impulsionado pelas novelas, virado realidade depois da década perdida. Onde e por que se formou a primeira grande onda de emigrantes, na primeira metade da década de 1980, ainda é motivo de controvérsia. O fato é que alguns poucos de nós construíram castelos, a maioria, uma vida digna, de classe média, e outros tantos penaram.

Agora a balança virou. Depois de sermos enxotados por britânicos e espanhóis, de ouvirmos de americanos que somos reponsáveis por ondas de desempregos, de trabalharmos sem 30 dias de férias ou vale refeição no Japão, voltamos a ser um país importador de gente. Nas últimas semanas, a chegada de haitianos a Brasiléia, no Acre, ganhou as manchetes de jornais brasileiros – em especial O Globo – e, seguidas vezes, do New York Times. Também deixou muitos brasileiros de cabelo em pé. Ouvi comentários preconceituosos que, poucos anos atrás, eram feitos a nosso respeito. Agora a bola está com a gente. Che facciamo, José?

O governo brasileiro deu um passo importante autorizando haitianos que estiverem em situação regular a levarem parentes para viver com eles. Cônguges, pais e filhos menores (ou solteiros com até 24 anos) estão liberados para entrar no país. A estimativa é que 4 mil hatianos tenham chegado ao Brasil nos últimos meses e outros 1,2 mil ainda estejam a caminho. Exigir a documentação dos imigrantes é correto. Mas contribuir para que eles consigam tê-la, é fundamental. O imigrante remodela a estrutura social do país. Fato. Mas a presença dele tende a enriquecê-la, e não o contrário.

Hoje, um editorial do Times abordava a necessidade de os Estados Unidos repensarem suas “políticas de imigração”. Dowell Myers sugere, aliás, que o país deixe de pensar por esse viés e adote “políticas para imigrantes”. Em vez de perguntar “onde estão os seus papeis”, que se pergunte “onde é sua aula de inglês?” Os americanos testemunham o processo oposto ao do Brasil. Pela primeira vez décadas, o país vê o índice de imigração chegar a zero. Ou seja, o número de pessoas que chegam ao país é mais ou menos equivalente ao de estrangeiros que abandonaram o sonho americano. É tolice pensar que isso trará mais empregos. Como mostra o editorial, o índice de latinos comprando casas cresce em uma proporção jamais vista entre os americanos. Espertos são os que abraçam as diferenças. Se não em nome da humanidade, que seja em nome do capitalismo.

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