Theo Angelopoulos

Talvez pelo enorme amor que tenho pela vida, volta e meia eu me pergunte como o mundo pode ser tão estúpido. Não, a vida nem sempre é justa e não, nem sempre somos recompensados por fazer o bem. Como aceitar que um gênio, a voz de uma nação, um poeta das imagens, morra atropelado por uma moto?

Lembro de mim e de Caetano Gotardo – hoje um grande cineasta – na época do colégio matando as aulas da tarde. Não para estudar para o iminente vestibular, mas para ver “A eternidade em um dia”, “Paisagem na neblina”, “Um olhar a cada dia” ou qualquer outra coisa de Theo Angelopoulos que chegasse à remota Vitória. Até hoje não sei como o Caetano arrumava essas fitas. Foi Caetano quem me apresentou a Angelopoulos e foi Angelopoulos quem me apresentou às banalidades muitas vezes violentas da vida. A imagem daquela mão saindo do mar me perturba até hoje. Um lembrança de que nada é eterno.

Foi com ele que aprendi a beleza do silêncio, da demora, dos passos curtos. Descobri que arte às vezes é sonho e que talvez, com alguma dose de esforço, possamos transformar nossos sonhos em arte. Depois que Angelopoulos entrou na minha vida, nunca mais consegui ver filmes de ação até o fim. Aquele movimento todo passou a me dar um sono… Vou dormir triste hoje, com uma dó imensa da Grécia. Se já estava difícil com ele, como será agora? A imagem daquela mão saindo do mar seguirá me perseguindo, só para lembrar que nada é eterno. Ou que Angelopoulos é eterno.

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