Eu e Ann

Tudo começou numa tarde do verão de 2011. Eu estava lendo a revista do NYT e esbarrei em um artigo sobre a mãe de Barack Obama. Havia acabado de entrevistar o biógrafo do presidente, David Remnick, e andava fascinada pela figura do presidente americano. A foto mostrava um Obaminha fofo, vestido de pirata, nos braços brancos e superprotetores de Stanley Ann. O texto era um excerto do livro de Janny Scott, “A Singular Woman”.

Li num gole. Comprei o livro. Outro gole. Sugeri ao Caderno Ela uma reportagem sobre o assunto. Telefonei para a autora para uma entrevista. Foi uma conversa solta, divertida, como se ela contasse histórias sobre uma amiga de infância. Aquela que às vezes te dá raiva, mas no fundo, era quem você queria ser quando crescesse. O que mais me impressionou em Ann não foi ela se casar com um negro em uma época em que mais da metade dos estados americanos proibiam casamentos interraciais. Nem ela passar mais da metade da vida adulta na Indonésia, dominando a língua e a cultura locais, longe do filho. Ou as viagens pelo mundo, os vários empregos voltados para a construção de um mundo melhor, ou a criação que ela deu para Maya e Barack, ou o conhecimento profundo das magias e artes dos ferreiros indonésios, ou a paixão pelo Havaí, ou as aventuras de adolescente. O que mais me impressionou não foi o que ela fez, mas como.

Ann era um espírito livre.

Ia fazendo porque ia.

Não calculava, apenas se apaixonava. Aí habitavam erros, frustrações, conquistas. Hoje, assistindo ao filho de Ann reeleito presidente dos Estados Unidos, vi “Uma Mulher Singular” chegar às livrarias brasileiras. Assinando a tradução, eu e Francisco Quinteiro Pires tentamos espalhar um pouco da inspiração que a vida dela trouxe às nossas. Desapegar-se do que disseram ser o certo é tortuoso. Ann lutou para mudar o mundo, se enfurnando em aldeias no meio da Ásia. Morreu cedo e um bocado frustrada, achando que não havia conseguido mudar quase nada. Hoje, quando vejo Maya e Barack, suas duas criações, pergunto quantas pessoas neste século fizeram mais pelo mundo do que ela. Deve-se contar nos dedos de uma mão. E Ann só ia.

“Uma Mulher Singular” – Editora Record

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