The Mountaintop

Eu adoraria usar o blog para escrever sobre como é maravilhosa a peça The Mountaintop, em cartaz na Broadway, com Samuel L. Jackson interpretando Martin Luther King. Infelizmente, não poderei fazê-lo. Para começo de conversa, se eu disser que entendi metade do texto, estou tentando me enganar. Angela Bassett fala com um sotaque do Sul tão carregado que, mesmo para os americanos, a compreensão é difícil. Além disso, a interpretação caricata que ela faz da camareira impede que a gente se apegue ao personagem.

A autora da peça queria desmitificar o reverendo King. Só que como é que a gente desmitifica o maior mito do século passado? Dizendo que ele tem chulé? Que é mulherengo? Abrindo o espetáculo com ele se dirigindo ao banheiro para um xixizinho básico? Meio complicado. Pode ser conservadorismo meu, mas os momentos mais bonitos são aqueles em que ele discursa ou tenta negociar com Deus, argumentando que  há motivos de sobra para deixa-lo entre nós um pouco mais.

O fim da história, a gente conhece. No Hotel Lorraine, em Memphis, onde se passa todo o espetáculo, Martin Luther King é assassinado. A peça termina com um passeio frenético pelo futuro que ele não testemunhou, mas que só aconteceu por causa dele. Talvez Dr King não mereça um perfil tão humano. Talvez ele mereça, e nos ajude a lembrar que na nossa pequenice de cada dia, podemos fazer alguma coisa pelo mundo. Mas que eu preferia seguir sem refletir sobre o chulé deste ídolo, ah, isso não dá para negar.

Only when I dance

Faz quase um ano, em um jantar na casa de amigos queridos no Queens, alguém me disse que acabara de ver um filme maravilhoso no Netflix. “Me acabei de chorar”, meu amigo afirmou, sobre “Only when I dance“, que desde então segue instantâneo no Netflix. Ontem, depois do trabalho, segui para um happy hour com umas amigas. Na mesa, éramos seis: duas brasileiras, uma indiana, uma peruana, uma colombiana e uma americana. Não falamos de trabalho. Conversamos sobre os diferentes modos de preconceito que presenciamos nos nossos respectivos países de origem. Três de nós ainda moramos na Europa, então acabamos falando um pouco de cada canto do mundo. O preconceito religioso entre os franceses, o racial entre os americanos, o étnico entre os hispânicos. Para nós, brasileiros, restou a sensação de que amamos ser um melting pot, mas guardamos no fundo do peito um monte de sentimentos preconceituosos. Não sei bem qual a minha opinião sobre isso. Ela muda a cada dia. Às vezes acho que não somos nem mesmo um pouquinho racistas. Outras, acho que a meu pensamento anterior era uma bela hipocrisia.

O fato é que, chegando em casa, resolvi ve um filme. Na primeira página do Netflix, eis que aparece “Only when I dance”. Decidido.

O filme narra a história de um grupo de dançarinos de uma comunidade pobre do Rio de Janeiro. O destaque vai para as trajetórias de Isabela Alves e Irlan Silva, distintas no curso e no destino. Claro que, como meu amigo, “me acabei de chorar”. Apesar de não ser seu objetivo central, o filme traz à tona o debate que tivemos à mesa. Considerado pelo New York Times “um Billy Elliot da vida real”, é minha recomendação para quem gosta de dança, do Brasil, ou simplesmente, de pessoas.

Samba no Brooklyn!

Próximo domingo tem show do Moacyr Luz em Nova York. Coisa rara. É a primeira vez em que o sambista tijucano vem à Big Apple. Conheço o Moacyr de outros carnavais. Literalmente. Ele é o fundador de uma das rodas de samba mais bacanas do Rio de Janeiro, na laje do Clube Santa Luzia, perto do Aeroporto Santos Dumont. Fiz uma matéria lá para o Jornal da Globo, uns cinco anos atrás. Antes disso já havia gravado com ele para reportagens sobre carnaval para o Bom dia Brasil e o RJTV. E antes disso, já era fã da música do carioca. Para quem não conhece, aí vai um vídeo com uma das minhas favoritas, ao lado do Wilson das Neves. Vale a pena conferir!

Moacyr Luz se apresenta às 8h30 pm, no Barbés, no Brooklyn.

Dica manjada

A dica é mesmo bem batida. Daquelas que aparecem em qualquer guia de turismo da Cidade do México, onde estive na semana passada. É como dizer a quem visita Nova York que dê um pulinho no Metropolitan Museum. Mas o Met não é imperdível? Pois então me sinto no direito – e no dever – de falar brevemente do Museo Nacional de Antropología.

Antes de chegar, se prepare. Tênis ou sandália baixinha são recomendados, já que o museu é enorme. Além das várias alas, há a parte externa, repleta de objetos e construções de povos pré-colombianos. Justamente por isso, a minha segunda recomendação é que você vá com tempo. É programa para um dia inteiro.

O acervo do museu é impressionante. Não descobrimos apenas detalhes das culturas maia e azteca, que a gente aprende no colégio. Cabem naquele espaço olmecas, teotihuacanos, zapotecas e os meus favoritos, os coloridíssimos toltecas. O bacana é que os objetos em exibição vêm acompanhados de textos que explicam cultura, arte, ciência e economia de cada um dos povos representados. Dá vontade de se matricular em um curso de náhuatl e sair por aí, falando sozinha!

Se não adiantou minha breve descrição e você segue achando que a dica de hoje é mais previsível que neve no inverno de Nova York, tenho uma boa desculpa para ter falado no museu neste momento. Está em cartaz uma exposição temporária com os desenhos de Jean Baptiste Debret. Todos retratando paisagens brasileiras. Os traços da população do Brasil-colônia aparecem em várias obras e a gente se vê em muitos deles. Faz o passeio valer ainda mais a pena.

In the Penal Colony

Já faz muito tempo que não passo aqui pelo blog para dividir com vocês as coisas bacanas que encontro aqui em Nova York. O motivo é muito simples: há mais ou menos um mês não consigo fazer quase nada além de estudar e trabalhar. Peço desculpas pela ausência, mas minhas aulas começaram e vida de estudante por aqui não é brincadeira. Não bastasse isso, o trabalho continua a todo vapor. Então, tempo mesmo, só para ler os livros exigidos pelos professores. E olhe lá!

Mas ontem, no meio dessa confusão, resolvi dar uma escapada e esbarrei em mais um desses programões que Nova York adora aprontar. “In the Penal Colony” é uma ópera de Phillip Glass baseada na obra de Franz Kafka. Ontem, foi apresentada em Brooklyn Heights. Só quem em um palco diferente. A igreja de Saint Ann, linda, linda, recebeu uma pequena orquestra, um baixo, um tenor e um público encantado. O assunto não é dos mais tranquilos. A obra fala de tortura. Justo quando estou lendo dois livraços para a aula de segunda-feira, sobre o regime Pinochet. Documentos incríveis, mas que trazem de volta histórias arrasadoras. Tristes demais.

O jeito é segurar o rebolado e lembrar o privilégio que é morar em uma cidade que nos presenteia com tantas coisas incríveis, em qualquer esquina, por um precinho bem camarada. Até achei um vídeo com a ópera do Glass. Mas do jeito que eu vi ontem, em uma igreja gótica, só em Nova York

Destaques do Globo Notícia Américas de 02/10

No “Globo Notícia Américas” deste domingo, 2 de outubro, Mila Burns mostra um aumento significativo do número de jovens famílias vivendo com dificuldades financeiras e o disparo dos preços de planos de saúde. Além disso, o programa vai falar sobre as inundações em Virgínia e o grande incêndio que atingiu o Texas. E ainda: o comércio americano já festeja o crescimento nas vendas por causa do Dia das Bruxas.

Andy Serkis na Super Interessante

Fiz uma série de entrevistas com o elenco do filme “Planeta dos macacos: a origem”. Uns dois posts abaixo, vocês podem ver a da revista Marie Claire, com o James Franco. Mas a minha preferida foi com o Andy Serkis, que já foi o Gollum em Senhor dos Anéis (lembra do “my precious”?) e no lançamento da Fox interpreta o macaco Caesar. Simpático, inteligente e conhecedor profundo do que faz, ele animou o dia. E a reportagem também!

Entrevista com o ator Andy Serkis para a revista Super Interessante de setembro de 2011

Já que estamos falando em Matisse…

Era uma vez duas irmãs podres de rica que adoravam viajar pelo mundo e gastar, gastar, gastar. A mais velha, Claribel, formou-se médica, mas depois de um período vivendo na Alemanha, em plena Primeira Guerra, desistiu da profissão. Esther, a caçula, cuidava da casa. Até que se envolveu (amorosamente, dizem por aí), com Gertrude Stein e tomou gosto pela arte.

Além de vestidos, pérolas e tapetes, as irmãs começaram a colecionar arte. Muita arte. São mais e 500 Matisse, mais de 100 Picasso e por aí vai. Fale um grande pintor e certamente ele estará na coleção. Os primeiros quadros, elas adquiriam quando os artistas ainda eram desconhecidos e viviam com grande dificuldade. “Tive que ter muito peito para pintar o que pintei naquela época. Mas mais coragem ainda teve quem comprou minhas obras”, disse Matisse.

Os apartamentos das duas irmãs eram repletos de quadros, do chão ao teto, em todos os cômodos, inclusive nos banheiros. Num dado momento tiveram de comprar outro apartamento. Elas decidiram que quando morressem, todos os quadros seriam doados, juntos, para um grande museu. Eram de Baltimore e afirmaram, em testamento, que se a cidade já tivesse espírito para compreender a arte, que ficasse com tudo. Caso contrário, deveriam procurar outra instituição americana.

Em 1949, quando morre Esther (vinte anos depois da morte de Claribel), Baltimore já estava pronta. O Baltimore Museum of Art recebeu, ainda, $ 400 mil para construir uma extensão, necessária para comportar tantas obras.

Até dia 25 de setembro deste mês, o Jewish Museum, em Nova York, recebe parte significativa da Cone Collection. Além de quadros deslumbrantes (são três odaliscas do Matisse, Gauguin, Van Gogh, Picasso, Renoir, entre outros), é interessante entender o que passava pela cabeça das irmãs (na foto ao lado com Gertrude Stein) e como o gosto delas foi mudando, se desenvolvendo, ao longo dos anos e das experiências de vida. Cheguei na hora em que começava uma visita guiada. Se você tiver a mesma sorte, vale a pena acompanhar.