Estranhas fantasias

Já que o assunto é inspiração, acabo de ver um filme daqueles. Na verdade, o filme em si não é a coisa mais fantástica do mundo. Mas fiquei impressionada com a saga – real – de Sandra Laing. Ela é um mito na África do Sul. Eu nunca havia ouvido falar. Depois de assitir a “Skin” (está instantâneo no Netflix!), corri atrás da história completa e descobri que é ainda mais impactante que o roteiro.

Sandra nasceu em 1966. Nelson Madela cumpria o segundo ano de uma sentença de morte. A África do Sul vivia sob o regime do Apartheid. Ela é filha de um casal branco. Mas nasceu com a pele mais escura. Classificada como negra, foi rejeitada por várias escolas até que a lei do país mudou e a classificação de raça passou a obedecer um novo critério: a cor de pele dos pais (se você está se perguntando se havia mulatos, a resposta é não, já que o casamento interracial era proibido e quem o fizesse era preso). Sandra passou a ser considerada branca perante a lei, mas não frente à sociedade. Não podia se sentar em bancos exclusivas para brancos, sentia enorme dificuldade em fazer amigos, era alvo de fofocas sempre que entrava em um restaurante. Até que se apaixonou por um negro.

Quando descobriu o romance, o pai ameaçou o rapaz (que o filme não mostra, mas já era casado e pai de três filhos) de morte. Grávida, Sandra deixou a família e foi viver com ele. Os dois tiveram três filhos, mas a caçula morreu aos sete meses. Ele, entou, passou a beber e se tornou um marido violento. Sandra saiu de casa com os dois filhos. Teve outros quatro. As desilusões amorosas foram inúmeras. As profissionais, outras tantas. Emocionais, nem se fala. Até hoje os dois irmãos dela não a dirigem a palavra. O pai morreu sem vê-la novamente e apenas no fim da vida, a mãe se reconciliou com ela.

O filme é emocionante e faz a gente pensar, em tempos de Kadhafi e companhia, em como certos regimes parecem inapropriados ao nosso tempo, mas encontram eco.

Por este motivo, recomendo também “Fantasia Lusitana”, mais difícil de encontrar e de ver. É quase um filme-poesia, com uma narração intrigante. Interessa, sobretudo aos que querem saber mais sobre o regime salazarista na nossa pátria-irmã. O documentário traz um apanhado de imagens da ditadura mais longa da história europeia. Não tem narração, apenas uma colagem da leitura de trechos de obras de três escritores que viveram em Lisboa no período. Para quem topa o desafio, segue abaixo a primeira parte deste raro documento.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s