Iowa: quem leva?

O dia amanheceu frio em Iowa. Ainda bem. Não fosse a ajuda da temperatura, o clima estaria beirando o insuportável. Em época de corrida eleitoral, os Estados Unidos passam por um fenômeno diferente do que assistimos no Brasil. A devassa à vida dos candidados inclui escândalos políticos, relacionamentos fora do casamento, religião. Herman Cain pediu para sair. Os que ficaram, ainda têm dois dias de provação. Terça-feira restará um na briga para derrubar o mais derrubável dos candidatos à reeleição na recente história dos Estados Unidos.

Newt Gingrich, que chegou a ser favorito, perdeu pontos pelos deslizes amorosos e por defender um tratamento mais humano aos imigrantes. Esse tipo de visão “progressista” é apedrejada de tal maneira que acaba dando lugar a um show de horrores, na busca pela aprovação dos consevadores. A assustadora propaganda de Rick Perry é um exemplo do que, na minha terra, faria muito caboclo corar de vergonha. Mas entre os republicanos faz sucesso.

Com Michele Bachmann praticamente sem chance, Perry, Gingrich e Rick Santorum se embolaram na terceira posição. Mitt Romney segue na liderança mas, segundo a Register’s Poll divulgada ontem, está praticamente em empate técnico com Ron Paul. Romney tem 24 pontos contra 22 de Paul e a margem de erro é de 4 pontos percentuais.

Por falar em show de horrores, cartas escritas há cerca de 20 anos por Ron Paul causaram alvoroço quando divulgadas, em meados de dezembro. Ele dizia, entre outras coisas, que portadores do vírus HIV deveriam ser impedidos de almoçar em restaurantes porque “AIDS pode ser transmitida pela saliva”. Chamou o Martin Luther King Day de “Hate Whitey Day” e disse, ainda, que a paz só voltou a reinar em Los Angeles quando chegou a hora de os negros buscarem seus benefícios do seguro social. Pelo visto, o alvoroço não foi grande o suficiente para fazer marola. Talvez tenha até alavancado a candidatura de Paul, que tem se recusado ferozmente a falar do assunto.

Romney foi retratado em perfis bastante completos pelo The New York Times e pela Time. Esta semana, a edição americana da The Economist traz um artigo de capa sobre quem seria o candidato ideal para os republicanos. A reportagem lembra que desde Franklin Roosevelt nenhum candidato à reeleição conseguiu vencer com um índice de desemprego tão alto. E ressalta a baixa popularidade de Barack Obama, na casa dos 40%.

O companheiro de partido de Romney, Newt Gingrich, disse recentemente que “Romney compraria as eleições, se pudesse”. Nos perfis mais recentes, ele é apontado como um homem com uma vida privada sem deslizes. Religioso, pai de família, formado em Harvard, herdeiro político de um antigo governador e, ele próprio, um ex-governador popular (e autor de medidas surpreendendetemente progressistas, como o Medicare) em Massachusetts. Já a conta bancária e as relações com Wall Street são repletas de controvérsias.

Em uma corrida tão apertada, em que nenhum candidato passou dos 25% nas últimas semanas, o jeito é esperar até terça-feira e brincar de fazer bolão. Meu palpite é que Romney vai levar a melhor e enfrentará Barack Obama nas eleições deste ano. E que ele virá mais conservador do que nunca. O show de horrores está só começando.

Visita lucrativa

Depois de serem peça fundamental na recuperação do mercado imobiliário da Flórida, os brasileiros são oficialmente os queridinhos do comércio americano. Hoje o The New York Times trouxe uma reportagem sobre lobby que a U.S Chamber of Commerce, unida a empresários, faz em Washington, sugerindo o fim da exigência de visto de turismo para os brazucas.

Em Miami, Dolce & Gabana, Hublot e até a Target querem funcionários que falem português. O Giraffas abriu uma filial na cidade do sol, com direito a pão de queijo e tudo. Aqui em Nova York não é diferente. Somos o terceiro povo que mais visita a cidade, mas primeiro no ranking dos que mais gastam. Estamos falando de turistas, sim. Mas cruzar fronteiras é uma maneira de aquecer a economia não apenas por isso.

Se somados ao redor do mundo nós, imigrantes, já formamos uma população maior que a brasileira. Somos 215 milhões de imigrantes de primeira geração. Trata-se de um grupo que promove redes entre nações, tornando mais fáceis o intercâmbio cultural e o econômico. Com a internet, as redes sociais, o skype, essa troca de informações se torna cada vez mais fácil e intensa. E o volume de dinheiro que ela promove acompanha a tendência.

A questão do crédito, o alerta de uma bolha prestes a explodir e a ausência de uma cultura de poupança entre os brasileiros são preocupantes. A diminuição dos preços das commodities e o desaceleramento mundial empurrado pelo double dip que enfrentamos são motivos suficientes para deixar qualquer cidadão de orelha em pé.

Mas talvez em vez de fechar fronteiras, como tentam fazer alguns países europeus, ou empunhar bandeiras contra a chegada de imigrantes, como fazem tantos republicanos por aqui, seja a hora de os países “desenvolvidos” fazerem as contas, pôr na ponta do lápis, e entenderem que o movimento nas fronteiras não traz prejuízos, violência ou desemprego. Traz uma nova estrutura mundial, tanto econômica quando cultural, capaz de produzir a riqueza que pode ajudar essas nações a saírem do buraco. Foi o que aconteceu com o mercado imobiliário de Miami.

Além do artigo do Times, o assunto foi reportagem de capa da The Economist pouco mais de um mês atrás. O livro Exceptional People, lançado este ano, traça uma perspectiva histórica do assunto para provar que migrações são tão antigas quando a humanidade e jamais foram responsáveis pela derrocada de nenhum povo. Muito pelo contrário.

Até a China, que sempre se fechou aos estrangeiros, já se deu conta disso. Em 2009, 100 mil forasteiros viviam em Xangai. E o número só aumenta. Profissionais qualificados, acadêmicos, empreendedores, agora são bem vindos, venham de onde vierem. E como nos últimos anos muitas das boas lições que o mundo tenta copiar vieram da China, talvez seja a hora de pensar em mais essa.

 

Merce e eu

Ele foi um dos primeiros a me mostrarem o privilégio que é viver em Nova York. Eu estava na cidade havia quatro meses e minha mãe veio me visitar. Nem conhecia o grupo mas, por recomendação de um amigo, comprei dois ingressos para “Merce Cunningham at 90”. Fomos ao BAM ver o que seria uma das últimas apresentações da Merce Cunningham Dance Company com ele vivo. Até escrevi um post sobre isso no finado prateconfundir.

O espetáculo, como de costume, foi inovador, de tirar o fôlego. No final, para receber os aplausos, Cunningham foi, de cadeira de rodas, à beira do palco. Ovacionado, acenou para a público, mandou beijos e se retirou. Uma das cenas mais emocionantes que já vi. Roteiristas dificilmente conseguem levar uma plateia inteira às lágrimas com tanta naturalidade quanto o talento.

Três meses depois, Cunningham se despediria para sempre. Ele morreu em julho de 2009, no meu sétimo mês em Nova York quando, graças a ele, eu já havia entendido que esta cidade é para ser respirada até onde o pulmão aguentar.

Duas semanas atrás, voltamos ao BAM (que acabou se tornando uma das nossas casas de espetáculos favoritas) para ver Cunningham. Era um espetáculo da “Legacy Tour” com a não-música de John Cage e figurinos de Jasper Johns. Uma coreografia exaustiva para nós, vítimas do excesso de estímulos do século XXI, mas certamente revolucionária nos anos 40, quando ela foi criada.

Ficamos tão apaixonados pela obra e vida de Cunningham que procuramos saber mais. Entre documentários e livros, assitimos a “Cage/ Cunningham”, sobre a colaboração entre os dois. Fomos ao “project” no West Village onde ele viveu e a companhia tem sede (a foto ao lado, tirada do celular, mostra a entrada). Sim, é uma bobagem. Coisa de fã. Mas serviu para, mais uma vez, nos despertar um respeito profundo pelo coreógrafo e por Nova York. Que cidade é esta que constrói um conjunto habitacional para abrigar seus artistas que estiverem passando por dificuldades financeiras? Merece ser palco de tantos momentos históricos.

Hoje, a Ilustrada, caderno de cultura da Folha de S. Paulo, traz uma belíssima matéria de capa sobre a despedida da companhia. Ainda dá tempo de assistir aos últimos movimentos de bailarinos treinados por ele. Pra quem não está na cidade ou não conseguir ingressos, a reportagem de Francisco Quinteiro Pires dá um gostinho do que será a despedida. Quem sabe a partir dela Cunningham não desperta nos leitores a mesma magia que despertou em mim?

O melhor clichê do natal

Sim, eu sei que deve ter passando em todos os canais de tv aberta nos últimos dias. Também imagino que você já tenha visto um milhão de vezes, mas eu confesso que jamais havia assistido à versão original de Miracle on 34th Street. Depois que descobri que o filme seria exibido no Film Forum, resolvi dar uma fuçada no Netflix e bingo! Está instantâneo.

O filme com Maureen O’Hara e John Payne nos papeis principais e Edmund Gwenn roubando a cena como o bom velhinho é um programão para hoje, amanhã ou depois. De quebra, ainda tem Natalie Wood em seu primeiro papel, como a menina Susan. A versão online é em preto e branco, de 1947. Se quiser a posterior, mais coloridinha, aí tem que ser pelo DVD mesmo. Mas vale a pena. Juro. Não pela mensagem de natal, mas pelos diálogos que a gente só encontra num tempo em que o politicamente correto ainda não havia ceifado a criatividade de boa parte dos roteiristas. E feliz natal a todos! ❤

 

 

Davi X Golias

No início de dezembro, o The New York Times publicou uma série de três reportagens sobre a morte do jogador de hockey dos Rangers, Derek Boogaard, aos 27 anos. “A Boy Learns to Brawl“, “Blood on the Ice” e “A Brain ‘Going Bad’” são o resultado de seis meses de trabalho do jornalista John Branch. Ele mostra a trajetória do jogador, de menino apaixonado por esporte, a vítima fatal de C.T.E (encefalopatia traumática crônica).

Boogaard não é o primeiro e, infelizmente, não será o último atleta e morrer em consequência de seguidas pancadas na cabeça. O caso dele, no entanto, me impressionou mais porque eu desconhecia as regras do hockey. Assisti a alguns vídeos dele parando o jogo, lançando as luvas ao chão, e dando início a uma selvagem luta de box, sob olhares atentos dos juízes e insanos da torcida. Tudo é parte do jogo, da tradição. E o povo adora. O filme Slap Shot (intantâneo no Netflix até o dia 26 deste mês), considerado um clássico pelos americanos, mostra com primor essa loucura.

No início do ano, eu e o cinegrafista Francisco Quinteiro Pires fomos até Boston conhecer a universidade onde os pesquisadores estudam a C.T.E. Os pedidos por mudanças nas regras dos esportes (hockey, futebol americano e até basquete anunciaram novidades, desde então) vinham de médicos, não de atletas. Pessoas acostumadas a olhar cérebros encolhidos, danificados por anos de dedicação à vitória. Acostumadas a ver casos de depressão, demência, suicídio. Nossa reportagem foi ao ar no Esporte Espetacular e fico impressionada ao saber que, tantos meses depois, apenas poucas alterações aconteceram. Talvez um passo importante para mudanças efetivas seja nós, fãs de esporte, nos informarmos.

Maurizio Cattelan. Que surpresa boa.

  

  

Estava fugindo da exposição de Maurizio Cattelan no Museu Guggenheim. Não sei se é o fim de ano, mas ando tão volúvel que a crítica da Time Out me desanimou. Mesmo sabendo que o jornalista que deu uma estrela para o evento raramente fala coisas interessantes, me deixei levar. Até que ontem, resolvemos nos aventurar. A caminho do Calder (que infelizmente saiu hoje da Pace Gallery e só comentarei amanhã), demos uma paradinha no Guggenheim e que surpresa! A exposição é uma das mais interessantes que já vi no museu.

Cattelan nos leva a pensar na reinvenção. Primeiro, do espaço. O Guggenheim virou um novo lugar com o seu vazio ocupado e as paredes, sempre cheias, completamente desnudas. Do chão ao teto, o átrio se redescobria recheado pelas obras do italiano. E o mais divertido, as obras também ganharam nova vida, expostas de uma maneira nada convencional: flutuando, e não presas às paredes.

O artista disse que suas obras só faziam sentido isoladas, nos momentos em que foram expostas, portanto a coletiva que o Guggenheim propunha não tinha razão de ser. Disse não. Depois de certa insistência, falou que até aceitaria fazer uma retrospectiva da carreira (que ganhou o nome de All), desde que as obras fosse penduradas no átrio do museu. O Guggenheim topou o desafio e o que a gente vê é a arte reinventada, nos desafiando, nos deixando de pernas bambas a cada curva.

Nesta época de fim de ano, em que tanto se fala em reinventar, arriscar, é a arte que traz inspiração.

O vídeo abaixo mostra um time lapse da montagem. Dá uma olhadinha e diz se não como vale a pena!

A maior loja de natal do mundo!

Fomos até uma cidadezinha no interior do Michigan, chamada Frankenmuth. Traços da colonização alemã ainda estão por lá. Mas a principal atração turística é a Bronner’s, a maior loja de produtos natalinos do mundo. O lugar vende natal o ano inteiro. É impressionante. A reportagem foi ao ar no programa Mundo S/A de segunda, dia 19/12, e tem imagens de Francisco Quinteiro Pires e edição de Eliane Camolesi e Alexandre Roldão. Para ver, clique aqui ou na foto ao lado!

Senna

Lá vou eu com minhas dicas de filme instantâneo no Netflix. Mas é que agora que o frio chegou para valer dá uma vontade tão grande de ficar em casa, no quentinho, vendo filme… O de ontem foi “Senna“. Estava super curiosa desde que o documentário estreou no cinema aqui em Nova York e foi elogiadíssimo pela crítica.

Na verdade, Ayrton Senna já havia voltado à minha memória desde que fui a uma exposição incrível do Francis Bacon no Metropolitan, uns dois anos atrás, e me deparei com um quadro em que o piloto era a musa. Não consigo de jeito nenhum encontrar a imagem na internet. Aliás, se alguém aí encontrar, me avise!

Mas voltando ao filme, ele entrou novamente na minha lista quando estive no Brasil. Uma amiga querida estava tão encantada que comprou o dvd e a gente quase fez uma sessão na casa dela. Mas tive que voltar correndo, e Senna acabou ficando para trás. Até eu descobrir que o super Netflix pôs o filme no instantâneo. Viva!

Recomendo aos que, como eu, se lembram de cada corrida. E também aos mais jovens, que não se acostumara a ouvir aquela musiquinha todo domingo. Vale, ainda, para os que têm birra, orgulho, enfim, qualquer relação passional com o maior ídolo do esporte brasileiro. O filme mostra um ser humano que sofre, luta, levanta, leva mais uma rasteira, se entristece. Não tem final feliz, todos sabem. Mas a gente sempre aprende.

Em entrevista, Scarlett Johansson mostra toda sua impaciência

Foi publicada hoje, no Caderno Ela, do jornal O Globo, a entrevista que fiz com a atriz Scarlett Johansson. Ela estreia no dia 23 de dezembro, ao lado de Matt Damon, no filme We bought a Zoo. A quem interessar possa: sim, a moça é deslumbrante. Sim, também é um tanto deslumbrada. Clique aqui ou na foto ao lado para ler a íntegra.

Veja os destaques do Globo Notícia Américas de 18/12

Este fim de semana tem mais uma edição do Globo Notícia Américas. É a última do ano! Vamos fazer uma pausa no natal e no ano novo. Já estou com saudades… O jeito é se despedir no domingo à noite! Aliás, é só um “até daqui a pouco”. Para ver os destaques, clique na foto ao lado ou aqui!