Ontem, em um dia cheio de grandes notícias aqui nos Estados Unidos, participei do GloboNews em Pauta. Falamos sobre e a condenação de Conrad Murray, o médico de Michael Jackson, e o pedido de concordata da American Airlines (clicando na foto ao lado ou aqui, você assiste ao comentário).
É claro, nem todos os filmes de François Ozon são antídotos para a tristeza. Não vi “Time to leave”, mas imagino que seja de afundar até Pollyana num quarto escuro. Em compensação, “5X2″, “8 femmes” e até “Swimming Pool” são uma contenteza só. O francês se esbalda em graça com suas histórias surreais, diálogos hilários e aqueles característicos momentos musical-da-Broadway-que-não-conto-mas-adoro.
Ontem assisti ao mais recente, “Potiche”, que já saiu dos cinemas, mas está instantâneo no Netflix. Catherine Deneuve e Gerard Depardieu, nem preciso dizer, valem o filme. Ela, no papel de uma inofensiva dona de casa que se vê obrigada a assumir os negócios da família quando o marido tem um colapso nervoso. Daí é um pastelão só. É tão raro ver uma narrativa esculachada ser, ao mesmo tempo, ácida e divertida. Talvez justamente por se fingir despretensioso, até bobo, Ozon chega sem escalas ao coração.
Rachel Perry Welty é demais. Descobri o trabalho desta artista conceitual do jeito mais improvável. Este mês ela assina um ensaio de quatro páginas na Vogue. Para as mocinhas que, como eu, adoram arte e consideram certos sapatos dignos de destaque em galerias, é de encher os olhos.
Num momento em que o mundo tanto fala em inovação, a obra de Rachel Welty é de virar a cabeça. No caso do ensaio, literalmente. É difícil entender onde começa o cenário, onde acaba a modelo. Sei que soa abstrato demais, mas faz lembrar como nós e o mundo somos um só (wow, que hippie eu estou hoje).
Para quem gostou da ideia, a mais recente exposição da artista, que fez sucesso aqui em Nova York, abre em janeiro em New Jersey, no Jane Voorhees Zimmerli Art Museum, que fica no campus da Rutgers University, New Brunswick.
Aproveito para dar uma dica de blog para os amantes de artes visuais. A amiga Dani Levkovits cirou o http://visuallovers.com/ justamente para vocês (e para mim)! Vale a pena conferir as dicas antes do seu próximo passeio por Nova York. A cidade nunca foi tão cool…
Dizem que política é feito novela: mudam os atores, mas os personagens são sempre os mesmos. Tomás Eloy Martínez levou isso a sério. É impossível saber onde acaba a história e começa a ficção em “The Perón Novel”. Muitos dos comportamentos de Juan Perón podem ser identificados ainda hoje, em políticos da região.
No livro, Perón é o personagem principal, mas a história é contada pelos coadjuvantes. A partir deles se forma o Perón ser humano, cheio de fraquezas e inseguranças. Um jeito surpreendende de construir – e desconstruir – um dos maiores mitos da história argentina.
Pode não ser uma dica previsível. Não se trata de um romance comum. Mas para quem se interessa por história, é um prato cheio. Eloy Martínez aborda o momento em que o líder volta do exílio na Espanha. Já está em declínio físico e político. O livro ganha muito com isso. Consegue transformar fatos políticos em uma novela rocambolesca de primeira linha. Foi surpreendente descobrir no trabalho de um acadêmico tamanha maleabilidade.
Com o volume de leitura do mestrado, não tenho conseguido ler nada além do exigido pelos professores. Mas quando a bibliografia pede um livraço desses, entendo por que estudar é tão bom.
Clique aqui para ler a crítica do NY Times da época em que o livro foi publicado.
Ainda dá tempo de ver uma das óperas mais lindas desta temporada. Satyagraha, de Philip Glass, ainda tem mais duas apresentações na Metropolitan Opera. Uma dia 26 de novembro e outra dia 01 de dezembro. A música de Glass, como de costume, é meditativa. Cheia de círculos que se repetem e levam o ouvinte a um lugar distante, a alguns metros da consciência. Nunca caiu tão bem quanto aqui. Nada mais justo que narrar o período de Gandhi na África do Sul de um jeito minimalista.
A montagem, no entanto, é grandiosa. Boa parte do cenário e dos bonecos gigantes que ajudam a contar a história (na foto ao lado) são de jornal, uma referência ao Indian Opinion, jornal fundado por Gandhi, onde ele desenvolveu e tornou público o conceito de Satyagraha. A ideia de resistência não-violenta e luta pelos direitos civis influenciou Nelson Mandela e Martin Luther King, entre outros.
O único conselho que dou é que, se houver ingressos e você tiver um dinheirinho a mais, fique na orquestra. A Duranga Kid aqui viu do Family Circle. O deslumbre se misturou a uma sensação de culpa, quase falta de respeito com a obra. São tantos detalhes na produção de Phelim McDermott que, certamente, valem o investimento.
Clique aqui para ler o meu post sobre outra ópera de Glass, A Colônia Penal.
O reencontro do público com alguns dos grandes nomes das artes plásticas brasileiras já estava dando pinta há algum tempo. Esbarrei em Lygia Clark e Hélio Oiticica em Londres e Buffalo, vi uma belíssima exposição das gravuras de Mira Schendel em São Paulo e ouvi falar de uma mostra na Gagosian de Paris que juntou a turma toda, inclusive Lygia Pape e Amilcar de Castro. Francisco Quinteiro Pires abordou o assunto em uma matéria bem mais completa que o meu post, para a Brasileiros.
Em Nova York, a galeria Dickinson, no Upper East, abriu dia 1 de novembro uma exposição bacanérrima juntando obras dessas feras. Chama-se “Playing With Form: Neoconcrete Art From Brazil”. Não tem mais desculpa para não se aprofundar. Está muito mais fácil encontrar o trabalho deles mundo afora.
Meu primeiro contato foi há uns dez anos, quando vi uma individual da Lygia Clark no Museu do Paço, no Rio de Janeiro. Eu era estudante de jornalismo e gostava de artes plásticas de orelhada, sem saber exatamente por que eu gostava. E o poder de amar apenas com o coração é uma coisa poderosa, que nos leva a desenvolver um sentimento muito honesto por determinadas obras. Foi assim com Lygia Clark. Tanto que já faz uns dez anos e eu nunca esqueci os Bichos, os traços que vi naquela exposição. Lembro até em que parte da sala eles estavam. Fui atrás de outras oportunidades mas, naquela época, o Brasil não dava muito valor aos seus prodígios (será que isso mudou?). O fato é que morando em Nova York tive chance de conhecer gênios brasileiros que até então se mostravam discretamente. Uma grande sorte, que agora deve estar em uma galeria bem perto de você.