Ao mestre, com carinho

Nos conhecemos quando eu tinha 18 anos e fui trabalhar como assistente de pesquisa dele, no Museu Nacional. Eu era uma capixaba recém-chegada ao Rio, estudante de jornalismo que não sabia nem o que era antropologia. Ganhava um salário e um bônus: Gilberto e Karina Kushnir dispunham do tempo deles, que valia muito mais que o meu, para replanejar o meu currículo acadêmico. O que mais uma jornalista deveria ler além do que os professores da ECO pediam? Mais Habermas? Mais Adorno? Mais Benjamin? Os dois não apenas recomendavam como depois “tomavam” a lição, para saber o que eu havia e não havia compreendido. Entre uma aula e outra, o maior aprendizado foi a generosidade.

Gilberto também me ensinou que moças devem andar do lado de dentro da calçada, protegidas pelo cavalheiro. E que lembrar o nome do autor é muito mais importante que o do livro. E que tudo, tudo mesmo, pode ser objeto de estudo. E que se olharmos bem, um assunto que parece pequenino, fica maior que o universo. E que jornalismo, antropologia, história não são ciências separadas, mas dedos de uma só mão: o ser humano. E que soldadinhos de chumbo guardam histórias. E que o teto das salas de aula do Museu Nacional caiu só uma vez, muito tempo atrás. E que Giralda havia sido campeã de vôlei. E que ele era um esgrimista para Errol Flynn nenhum botar defeito. E que se ele ficava zangado, talvez fosse o caso de esperar uns três dias para o coração dele se encher de saudade e tudo acabar em pizza. Na Capricciosa, de preferência.

Entre blagues e citações (com direito ao número da página e tudo), Gilberto plantou em mim a paixão pelo estudo. Passei a me interessar pelo mundo acadêmico, fiz um mestrado, outro, publiquei um livro. Mais que isso: por causa dele me tornei quem eu sou hoje. Tem muita gente com quem convivemos ao longo de décadas que não influencia em nada quem nos tornamos. Gilberto ajudou a forjar centenas de orientandos. Lendo as reportagens sobre sua despedida, fiquei intrigada com a frase “não deixa filhos.” Somos centenas deles. Para sempre saudosos. Para sempre agradecidos.

((clique aqui para ler o belíssimo artigo de Karina Kushnir em homenagem a Gilberto Velho))

 

One thought on “Ao mestre, com carinho

  1. Que linda homenagem! Que Deus abençoe o Gilberto e à vc! Que Gilberto continue te iluminando sempre! E que você continue essa aprendiz do mundo mesmo com tanto pra ensinar!
    bjo grande!

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