Quem sabe faz ao vivo. Ou não.

Teatro, ópera e dança têm um elemento que o cinema e as artes plásticas não possuem: a angústia de serem ao vivo. No meu trabalho, faço um pouco das duas coisas. Os VTs, como a gente chama na televisão, são matérias gravadas. Os vivos, vocês sabem, vão direto do mundo real para os nossos aparelhinhos. Sempre preferi ao vivo, por mais estranho que pareça. Há um fator psicológico decisivo: não levo um peso para casa. Quando gravo, passo dias imaginando como ficará o produto final e a angústia só desaparece quando ele vai ao ar. Só que muitas vezes o vivo não sai como desejado. Você se atrapalha com as palavras, dá branco, o entrevistado fica nervoso, enfim. Tudo pode acontecer. Por isso imagino como é dura a vida da bailarina.

Na semana passada fui ver o American Ballet Theater, como faço toda temporada, desde que cheguei. Se você nunca foi, é mais um programa que recomendo. Tem ingressos tão baratos quanto $20, no Family Circle. Estudante paga $25 na orquestra, se não me engano, comprando no mesmo dia. É bem mais em conta do que as super produções da companhia podem sugerir. Pois bem, na última semana fui ver La Bayadère, com o Marcelo Gomes. Já estava me desmanchando em orgulho quando, de repente, pluft! Uma bailarina se estabaca com tudo. Cai de queixo no chão. Foram segundos. Mas como duraram. Só de pensar no “ohhhh” da plateia ainda tenho calafrios. Imaginei a moça chorando no travesseiro, indo para casa sozinha, de metrô, e sendo abordada por estranhos que perguntavam o motivo dos olhos inchados. Imaginei a mãe, tentando consolar a filhota de longe, pelo telefone (sim, porque a minha bailarina mora longe, tem uma família humilde e tinha colocado todas as fichas naquele balé, daquela noite). Como é dramático o ao vivo! Meu balé terminou como uma ópera.

Alguns dias depois, a convite de uma amiga que entende minhas obsessões, voltei para ver o mesmo balé. Nenhum tombo, tudo perfeito. Mas sem os saltos do Marcelo Gomes e sem a humanidade da bailarina, foi uma outra experiência. Em suas imperfeições, aquele foi um dos mais belos balés a que assisti. Aprender que, sim, Chico Buarque, a bailarina tem catapora, piolho e provavelmente um irmão meio zarolho, foi libertador. Com a novidade, descobri, também, a beleza de errar ao vivo, em praça pública, na frente de todo mundo. Na hora, a dor parece bem maior. Mas hoje já imagino a minha bailarina saindo chateada, mas sendo confortada por um namorado lindo, ganhando flores das amigas e esquecendo uma semana depois. Ou não esquecendo, mas aprendendo com o tombo que ela deve pôr um pouco menos de energia naquele salto.

Hoje vou ver The Bright Stream com o Marcelo Gomes e a Paloma Herrera. Mais um presentão da minha amiga compreensiva (e tão obcecada quanto eu). E vou leve feito a Julie Kent. Sabendo que, se alguém cair, vai se levantar e a vida continua. Afinal, reparando bem todo mundo tem pereba, marca de vacina, unha encardida, dente com comida…

Museum of the City of New York

Existem muitas razões para visitar o Museum of the City of New York. Primeiro, ele é um dos poucos que abrem sete dias por semana, de 10am às 6pm. Segundo, ele fica na Museum Mile, então quando estiver de passagem por outro museu, é fácil dar um pulinho lá. Terceiro, a lojinha tem ótimas ideias de presentes para apaixonados por essa cidade.

Agora, a razão mais importante: as exposições. Tem aquelas que relatam a história de Nova York, como “The greatest Grid” (até 15 de julho), sobre o sistema de grid das ruas da cidade, ou “Activist New York”, que mostra vários momentos de mobilização social na capital do mundo. Ou até a divertida exposição sobre o Apollo Theater, que vi no ano passado.

O lugar também reúne temporárias de artistas plásticos surpreendentes. Neste momento, dois estão em cartaz. Stone Roberts traz suas pinturas hiperrealistas de paisagens que a gente vê todo o dia, nessas ruas quentes e coloridas. O homem sentado na escada, a feira-livre, os apressados da Grand Central (na foto ao lado). Estão todos lá. Mas quem me encheu os olhos e roubou boa parte da minha tarde no museu foi Neil Goldberg, com sua “Stories the City Tells Itself” (foto lá do alto). O cara é um gênio obsessivo, que se encanta pelas repetições de cenas urbanas. O comerciante abrindo a loja, o bufê de saladas, o metrô que você perdeu por alguns segundos. Momentos de dor e rotina são repetidos à exaustão, como em uma tentativa de lembrar que, mesmo entre 8 milhões de pessoas, uma essência comum permanece. Corra, porque a exposição só fica até dia 19 de junho!

Cidadão de onde?

Um dos artigos mais polêmicos que já li sobre a questão do imigrante (não apenas nos Estados Unidos, mas em todo o mundo) foi publicado na última sexta no The New York Times. Jacqueline Stevens, professora de ciência política na Northwestern University propõe não apenas a abolição da exigência do local de nascimento, mas a abertura irrestrita das fronteiras entre países. Para ela, o que faz o cidadão é a política do país, não o lugar de onde ele vem.

O argumento é questionado tanto pela direita, por motivos óbvios, quanto por esquerdistas que acreditam que uma medida do tipo causaria uma redução global de salários, além do esgotamento dos postos de trabalho em países mais ricos. Citando, inclusive, o brasileiro Eduardo Saverin, do Facebook, que recentemente renunciou à cidadania americana, Stevens é categórica: “precisamos de governos, não de Estados”.

É difícil chegar a uma conclusão apenas com a leitura do artigo (talvez o livro de Stevens, “States Without Nations: Citizenship for Mortals” seja um bom começo), mas é sempre bom ver opiniões instigantes sobre o assunto. Qual é a sua?

Clique aqui para ler o artigo no site do NYT.

Keith Haring @ Brooklyn Museum

Vai até o dia 08 de julho, no Brooklyn Museum, a exposição Keith Haring: 1978-1982, que atravessa a fase mais produtiva do artista. Ela inclui  paineis gigantescos e pequenas gravuras que deram fama ao “artista de rua” mais célebre de Nova York. Mas preste atenção: a exposição tem várias pérolas escondidas que, na pressa, podem ficar para trás.

Primeiro, os vídeos (abaixo, 26 segundos de um desses vídeos, filmadopor algum visitante). O trabalho de Haring muda consideravelmente depois que ele descobre o recurso da imagem em movimento, tão ligada ao que ele buscava em sua obra (já reparou na tinta escorrendo em vários quadros?). Em televisões espalhadas pela galeria, a gente vê o processo criativo do artista, meio irresponsável, solitário, apressado. E justamente por isso, tão original.

Segundo, a última parte da exposição, aquela a que a gente já chega cansado, com os pés doendo, é uma das mais reveladoras. Traz o Haring artista de rua, grafiteiro, que fazia das estações de metrô seu ateliê. Ele acreditava que a arte deveria ser para todos e o movimento do grafite, que ganhara força na cidade mais uma menos uma década antes, influenciou de maneira decisiva o Haring de meados dos anos 80. Não sei como os americanos conseguem essas coisas, mas vários murais de propaganda de metrô que ele rabiscava com giz estão reunidos.

Por fim, mas não menos importante, tire um tempinho para passear pelo Brooklyn Museum. O espaço foi reformado recentemente e está ainda melhor. No próprio piso da exposição, mas no outro extremo, há uma área interessantíssima, em que você passeia pelo acervo, vendo de perto o que não está “oficialmente” em exposição. No primeiro piso, a parte de África segue poderosa, mas repaginada e cheia de novidades. Programão.

Globo Notícia Américas 20/05/12

No “Globo Notícia Américas” deste domingo, 20 de maio, você vai ver: pesquisas mostram que a disputa entre Barack Obama e Mitt Romney pela presidência norte-americana está praticamente empatada. Saiba também como foi a primeira semana do ‘Comunidades Seguras’ em Massachusetts e Nova York. Muitos imigrantes protestaram.

Você vai conferir, ainda,  uma entrevista com o ator e cantor Fiuk em Nova York. O ator viajou para a Big Apple para representar a TV Globo no lançamento da campanha da loja Macy’s “Brasil: A Magical Journey”.

Não perca! O “Globo Notícia Américas” vai ao ar às 19h30 (horário de Nova York). Para ver a chamada clique aqui ou na foto acima.

Figuraça da semana 2

Imagina entrar calmamente na pizzaria tendo como principal dilema de vida mozzarella ou marguerita. Assim estava eu ontem quando fui à Famous Famiglia Pizzaria, no Upper West Side. Para quem não mora em Nova York, é uma daquelas pizzarias de balcão, em que você pede uma fatia o rapaz esquenta e, em minutos, você vai embora, comendo, feliz, o seu pedaço. Coisa boba mesmo.

Só que ontem não foi uma note qualquer. Um pouco à minha frente na fila, estava o homem-árvore. Isso mesmo. Com mais de dois metros de altura, embalados por uma perna de pau, e uma fantasia de dar medo em lutador de MMA, o moço devorava calmamente sua fatia de calabresa. Assustador. Quando perguntei o porquê daquilo tudo, ele disse que é um artista, cria seus próprios personagens e inventa as próprias histórias. O site dele tem fotos e conta que ele é de Venice Beach.

Nova York é uma cidade democrática. Você pode ser o que quiser e ninguém te incomoda. A impressão que dá é que as pessoas têm tantas coisas mais importantes a fazer que não estão nem aí se você anda com uma melancia na cabeça. Mas até aqui, o homem-árvore causou um impacto. Na fila, um senhor dizia que tinha atravessado a rua, com medo dele. Outro, disse que quase morreu de susto ao vê-lo encostado numa árvore. Para mim, o momento mais estranho foi homem-árvore esperando o ônibus. Como ele faz pra entrar? Senta ou fica de pé?

Globo Notícia Américas 13/05/2012

O “Globo Notícia Américas” deste domingo, 13 de maio, vai mostrar a preocupação dos especialistas com a obesidade nos Estados Unidos. Em 2030, 42% dos americanos estarão obesos. Além disso, uma boa notícia para o bolso: o preço da gasolina está caindo nos Estados Unidos, depois de um longo tempo em alta.

A estudante que virou símbolo na luta pelos direitos dos imigrantes consegue estender o prazo de deportação e continua na Georgia. E mais: na semana em que o casamento gay é tópico de discussão nos EUA,  a filha do presidente cubano Raul Castro afirma que o país precisa respeitar os direitos dos homossexuais.

Não perca! O “Globo Notícia Américas” vai ao ar às 19h30 (horário de Nova York). Para ver a chamada, clique na foto acima ou aqui!

O Exótico Hotel Marigold

Uma ótima pedida para o fim de semana é o filme “O Exótico Hotel Marigold”. Bom para sair feliz do cinema, achando que a vida é bela e tudo é possível. O filme já é considerado um fenômeno de bilheteria na Inglaterra. No começo, a ideia era arrastar para os cinemas o público mais velho, na mesma faixa etária do elenco. Mas o longa-metragem foi muito além. Hoje, o Estúdio I, da Globo News, apresentado pela super Maria Beltrão, trouxe uma entrevista que fiz com os atores. Eu adorei conversar com feras como Judi Dench, Tom Wilkinson e Penelope Wilton. E gostei ainda mais de ver o resultado no ar, em uma edição caprichada! Para ver, clique aqui.

Figuraça da semana

Da série “coisas que só acontecem no Harlem”. Hoje o rapazote aí do lado malhava calmamente no cruzamento da 125th Street com a Lenox Ave, simplesmente o ponto mais movimentado do bairro. Isso às 3 da tarde. É ou não é uma cidade democrática? É ou não é um bairro, digamos, surpreendente?

Jardim Botânico do Brooklyn

Quando o verão chega, Nova York se enfeita. Os jardins mais lindos cruzam a cidade. Em frente à Columbia University são tulipas coloridas. Nos canteiros das calçadas, amores-perfeitos disputam a preferência com azaleias. O da foto ao lado é na entrada do Central Park pelo lado west da 72nd Street. Tulipas em preto e branco, para quem acha que já viu de tudo. O Brooklyn Botanic Garden reune um pouco de tudo isso, com direito a jardim japonês, áreas dedicadas à poesia e, claro, cherry blossoms. Eu já tinha ido algumas vezes, mas sempre pulava a parte das estufas. Não faça isso! É, no mínimo, curioso ver aquela reunião de plantas desérticas, tropicais (como diz a minha amiga, parece que a gente está no Rio), orquídeas, enfim, um barato.

Era tanta coisa que, em vez de postar uma foto, resolvi fazer um videozinho com o melhor da minha última visita. E Maria Bethânica, porque ninguém é de ferro! Boa semana para todos nós!