Nuestra gente

Está em cartaz no Museu del Barío, em Nova York, a exposição The (S) Files 2011. É a sexta edição da bienal de arte latina que, desta vez, traz 75 artistas de vários países. O S entre parêntesis se refere a “street”, porque as obras são de artistas de rua, ou que têm influência das ruas em seu trabalho. É incrível ver como o grafiti, os sinais urbanos e até tampas de bueiros podem dar origem a tamanha pulsão de criatividade.

Não há apenas um, mas dezenas de artistas brilhantes expondo seus trabalhos ali. A maioria, mais jovem que eu. As brasileiras Thessia Machado e Priscilla de Carvalho (que também tem uma obra em exibição no Socrates Park) representam nosso país grandiosamente. A primeira, com uma vitrola que lembra Hermeto Pascoal. A segunda, com uma favela que mistura a zona norte do Rio às ruas de Manhattan. A foto ao lado é da obra de Lee Quiñones. As folhas da floresta que ele criou (e a foto não consegue mostrar) são notas de dólares. Justine Reyes usa a frase tradicional do metrô de NY “if you see something, say something” para questionar o preconceito em uma série de fotos.

O Museo del Barío fica na 5th Ave, na esquina com a 105th Street. Muitos novaiorquinos nunca foram lá, simplesmente porque ele não está na lista dos museus mais famosos da cidade. Um bom motivo para experimentar. Não há filas, o atendimento é ótimo (os seguranças vem até você comentar as obras. Já viu disso?) e, fora do circuitão, o museu se permite ousar. Sempre há boas exposições por lá.

I do boroughs

Uma das maiores mudanças de vida para quem mora é Nova York acontece quando você começa a visitar os outros boroughs da cidade. São cinco: Bronx, Queens, Brooklyn, Staten Island e Manhattan, mas a gente tende a ficar apenas no último, e perde a diversidade dos demais. Entendo quem tem preguiça, afinal, já tem tanta coisa por aqui, né? Mas boa parte do mundo se esconde nos restaurantes do Queens, nas padarias do Brooklyn, nas etnias do Bronx.

Para quem não sabe por onde começar, uma boa dica é seguir a programação de verão pela cidade. A foto ao lado e o vídeo abaixo mostram o recital da Metropolitan Opera realizado na última terça, de graça, no Socrates Park, no Queens. Layla Claire e Ryan Speedo Green cantam a ária La ci darem la mano, de Don Giovanni. A vista do lugar é linda e há arte em todos os cantos do largo gramado. No momento, o lugar recebe parte da bienal de arte latina, que também está no Museo del Barío (farei um post sobre ela logo, logo). Não é tão bem cuidado quanto os parques da ilha, mas tem uma vista linda e atrações que mudam ao longo do ano.

De lá, sugiro seguir para um jantar ou almoço no melhor grego da cidade, o Taverna Kyklades, no Ditmars Blvd. Um ônibus te leva direto do parque até lá. Se você lembra de Samantha Jones, nas primeiras temporadas de Sex and City dizendo “I don’t do boroughs”, saiba que a bobona perdeu muito. God Save the Queens!

Nova York, Senegal ou Palmas?

Toda vez que o verão chega, aqui em Nova York, começa uma discussão entre os brasileiros: o calor no Rio é pior que o daqui? Sempre tive a sensação de que nada se comparava ao forno em que se transforma a Big Apple neste época do ano, mas pensei que fosse algum lapso de memória. Esta semana, tive certeza de que não há qualquer falha na minha cachola. O calor daqui é mesmo muito pior que o tropical. Você respira e o ar não vem! Além disso, fala sério, sensação térmica de 50 graus centígrados eu nunca tinha vivenciado! O pior é o “se ficar o bicho pega, se correr o bicho come”: na rua, sol na moleira; em casa, o ar condicionado não dá vazão. A foto mostra os bebedouros públicos que a prefeitura espalhou pela rua.

Entre as coisas de que mais sinto falta no Brasil estão maçã (a daqui é igual a da Branca de Neve), jaboticaba e doce de jaca. O resto a gente encontra no mercado. Agora, minha lista tem mais um item, que já chegou ultrapassando todos os demais: brisa. São Pedro, manda uma brisinha pra essas bandas, pelamordedeus!

Manuel Bandeira já sabia há muito como a brisa é fundamental para viver bem. Olha só que poema lindo:

Vamos viver no Nordeste, Anarina.

Deixarei aqui meus amigos, meus livros, minhas riquezas, minha vergonha.

Deixaras aqui tua filha, tua avo, teu marido, teu amante

Aqui faz muito calor.

No Nordeste faz calor tambem.

Mas lá tem brisa:

Vamos viver de brisa, Anarina.

E abaixo, o poema musicado, na voz de Maria Bethânia. Hoje, será esta a trilha para a minha dança da chuva… ou da brisa!

Globo Notícia Américas – 22/07/11

Globo Notícia Américas - chamada para o programa de 22 de julho de 2011

Oi, pessoal! O Globo Notícia Américas vai ao ar este domingo, depois de Cinema Especial. Vamos fazer um giro pelos Estado s Unidos mostrando a onda de calor, que já atinge 42 estados. Michelle Obama faz parceria com redes de supermercados para levar alimentos saudáveis aos chamados “desertos de alimentos”. Tem ainda a operação policial que fechou 200 laboratórios de drogas na Bolívia e uma entrevista com o cineasta Toniko Melo,  diretor de VIPs, o fime com Wagner Moura que fez sucesso na Premiere Brasil, no Moma.

Clique na imagem para ver a chamada do programa!

Aparelho portátil mede poluição

SPTV - 21 de julho de 2011 - Aparelho portátil mede poluição

Fiquei muito orgulhosa da reportagem que foi ao ar hoje no SPTV. Primeiramente, porque as imagens de Francisco Quinteiro Pires ficaram lindas, a edição de Davy Areia, super bem-feita, como de costume, e o trabalho da equipe inteira do SPTV é para ser aplaudido. Valeu, Flavia Freire e Cristiana Randow!

Em segundo lugar (last but not least), porque o tema é de enorme importância. Em um momento em que o Brasil aprova um Código Florestal cheio de deficiências e São Paulo sofre com a poluição, ver que tem gente, tão longe, trabalhando para ajudar a salvar o planeta nos enche de esperança.

Parabéns a toda a equipe! Para ver, é só clicar na foto ao lado! Divirtam-se!

De Cao a Tom

Este cara aí no foto do lado, na pontinha, de camisa branca, abraçando alguém e rodeado por tantos alguéns, foi ovacionado hoje no Lincoln Center. Já vi muita gente ali naquele palco. Mas poucas pessoas foram tão aplaudidas quanto Tom Zé. O público todo, de pé, pediu bis. E depois do bis, se levantou mais uma vez.

Tom Zé improvisou. Fez música com a lista telefônica de Nova York (call 911 era um dos versos) e com a frase mais famosa da cidade, “Stand clear of the closing doors, please“. Cantou clássicos, como Todos os Olhos, e canções dos discos mais recentes, pós David Byrne. Foi genial.

Ontem fui ao Moma assistir ao último filme de Cao Guimarães, Ex Isto. É uma obra baseada no livro mais louco da literatura brasileira, Catatau, de Paulo Leminski. O filme não poderia ser diferente. Não tem diálogos. Tem apenas um personagem: René Descartes. É um devaneio sobre o que teria pensado o filósofo do cartesianismo se desembarcasse no Brasil. Mas não é um filme chato, ou difícil. Pelo contrário. É uma viagem deliciosa pelo caos brasileiro.

Nas duas situações vi salas cheias de americanos, ansiosos para aplaudir inventores brasileiros. Artistas autorais, com obras que bebem na nossa cultura. Ambas, como boa poesia que são, difíceis de traduzir. Ainda assim, dava para sentir a comunicação intensa entre público e artista.

Fiquei com pena de ter que estar longe de casa para ver cenas tão bonitas. Abaixo, a música Augusta, Angélica e Consolação. Certamente os americanos perderam por não saberem que se tratam de nomes de ruas de São Paulo, não apenas de mulheres. Mas quem estava lá hoje, vendo Tom Zé, certamente ganhou muito mais.

 

 

Toujours Serge!

Outro dia postei aqui um vídeo do Serge Gainsbourg cantando La Javanaise. É quase uma obessão, eu sei. Mas não dá! Ele é demais. Para quem conhece pouco a obra do compositor francês, uma boa dica é o podcast que o Paulo Roberto Pires para a revista Bravo!. Para ouvir, clique aqui!

Estou louca para ver Serge Gainsbourg: A Heroic Life (que no Brasil ganhou o título tosco de O Homem que amava as mulheres). Recomendação da leitora do blog! Ainda não está no Netflix, mas no Brasil está nos cinemas. Quem puder, veja e me conte depois o que achou!

Você não está só!

Descobri que não sou a única que entra em pânico quando o verão chega em Nova York. É tanta coisa incrível para fazer ao mesmo tempo que o grande dilema é fazer tudo caber no espaço de 24 horas. Caramba, por que os dias não são mais compridos no verão? Bem que o congresso americano podia pensar nisso…

Enquanto isso não acontece, me consolo com o fato de saber que não estou só nesse dúvida. Os críticos do New York Times também acham impossível apontar apenas um programa. Mas eles toparam o desafio e o resultado está no jornal deste sábado. Vale a pena ficar atento às dicas dessa turma. Afinal, num dia em que o uni-duni-tê não funcionar, talvez o Times funcione!

Entre os indicados em música, está o show de Tom Zé, amanhã. Vamos?

Filmes demasiado humanos

Hoje o post é sobre dois filmes que balançaram minhas estruturas esta semana: Children of Paradise (Les enfants du paradise) e Another Year. O primeiro, de Marcel Carné, foi filmado em 1945, durante a ocupação alemã na França. Muita gente diz que o longa, de mais de três horas, é o E o Vento Levou dos franceses. Se pensarmos no caráter do povo americano e no do povo francês, tem muito sentido. Children of Paradise conta a história da bela Garance e dos quatro homens apaixonados por ela: um assassino, um mímico, um ator e um conde. É uma história trágica, mas repleta de humanidade. Os diálogos são brilhantes e a gente se identifica com cada um dos personagens. Ninguém é inteiramente bom ou mau. São todos demasiado humanos. Está no meu top 5 da vida, sem dúvida.

Não tão incrível, mas tão humano quanto é Another Year, de um dos meus diretores contemporâneos preferidos, Mike Leigh. O filme mostra um casal maduro que leva uma vida serena, mas se vê cercado de amigos repletos de dilemas. Depressão, morte, solidão.Está tudo ali, no quintal da casa no subúrbio de Londres. O final, é de rasgar o coração. Os dois filmes estão no Netflix. Para quem está no Brasil, eu pesquisei aqui e vi que ambos estão nas locadoras. Facinho, facinho.