SoHa é a vovozinha

A região entre a rua 110th e a 116th, principalmente na Fredrick Douglass (como a 8th Ave é chamada no Harlem) está vivendo uma era de renascimento poucas vezes vista. É o que os americanos chamam de gentrification (também existe gentrificação, em português, mas a gente usa raramente), quando populações mais afluentes migram para determinada área. O Harlem está vivendo o fenômeno há cerca de dez anos e agora já é possível encontrar restaurantes badalados em fila.

Para os Harlemites, ou para os menos preguiçosos, que topam subir até aqui, algumas dicas. Na esquina da Fredrick Douglass com a 113th tem o Bier International, um bar aberto, com cervejas incríveis em que é possível combinar o menu com a bebida, seguindo as sugestões do chef. Do outro lado da rua tem um etíope de primeira, o Zoma, onde a comida é sempre boa. Na esquina com a 116th, abriu hoje o Harlem Tavern. Vamos até lá conferir e depois conto aqui, mas o lugar é promissor, com um enorme pátio. E guarde espaço para a sobremesa. Na mesma esquina está uma filial do Levain, o melhor cookie do mundo.  Fora da Fredrick Douglass, na Lenox com a 125th está o badalado Red Rooster, que Obama escolheu para iniciar sua campanha à reeleição. Melhor bolo de milho do mundo e comida deliciosa.

Só não me venham chamar a área de SoHa, South Harlem, como virou moda em alguns jornais. Harlemites são extremamente orgulhosos da sua história e cultura. Seja na 110th, na 125th ou na 148th, Harlem é Harlem.

Super Chico contra o baixo-astral


Hoje eu ia escrever sobre a entrevista que fiz com James Franco. Isso, meninas. James Franco. Só mesmo uma pessoa poderia me fazer desistir dele: Chico Buarque. É que esbarrei num vídeo do Chico “rachando o bico”, como dizem os paulistas, com os comentários que leu na internet sobre ele mesmo. Chico sério já vale a pena. Rindo, é impagável. Rindo de si mesmo, é uma lição de vida. É para gargalhar junto e refletir sobre como a gente perde tempo se importando com o que os outros pensam da gente. Sempre que você ficar para baixo porque falaram isso ou aquilo de você, mire-se no exemplo desse homem do Rio.

Em tempo: amanhã tem post sobre o James Franco e as descobertas que fiz a partir da entrevista com ele.

Em tempo 2: amanhã tem matéria minha no caderno Ela, do jornal O Globo, sobre a biografia de Stanley Ann Durham, mãe de Barack Obama. Amigos do Brasil, não percam!

Barulhenta, suja e maravilhosa

Já declarei inúmeras vezes meu amor por Nova York. Não canso de falar e, juro, ele aumenta a cada dia. É mesmo a melhor cidade do mundo. E ninguém nunca conseguiu me provar o contrário. Hoje a amiga Renata Chiara, que morou aqui por quase sete anos, postou uma matéria do Tempos de Nova York sobre os barulhos da cidade. Vale conferir no site deles, onde estão as gravações, por exemplo, da chegada do metrô na estação da Times Square.

O metrô, as arrancadas dos táxis, o caminhão que raspa a neve das ruas, as conversas aos berros nas ruas do Harlem são, para mim, parte fundamental do imaginário de Nova York. Mas a novidade do momento tem sido os motoqueiros do Bronx, que passam pela minha rua todo domingo de manhã. A polícia bem que tenta pegar a turma, mas eles dão um balaio… Entram na contra-mão, empinam as motos, um escândalo. Vou tentar filmar um dia para mostrar aqui.

Uma cidade que a cada dia tem novas atrações e até novos barulhos tem mesmo que ser amada!

NY é uma pechincha

Sempre ouvi falar que Nova York era uma das cidades mais caras do mundo. Pelo visto, as coisas mudaram. Sim, o aluguel aqui continua uma fortuna. Sim, tem restaurantes em que seu estômago, olhos e coração juntos não seriam suficientes para pagar a conta. Mas em que lugar do mundo você anda de ponta a ponta, de metrô, sem precisar de preocupar com a violência ou com o estacionamento, pagando apenas $ 104,00 por mês? Pode andar à vontade, passar o dia roncando num trem meio sujinho, mas com ar condicionado. O valor não muda! Não é à toa que tem até música declarando amores pelo Metrocard…

Eu já vinha sentindo a diferença, mas achei que fosse por causa dos incríveis sites de deals que andei descobrindo. Leila e Andres, um casal de amigos daqui (ela iraniana, ele colombiano), conhecem como poucos esses grandes negócios e me passaram várias dicas. Audience Extras, Pulsd (esse foi dica da Ju Dorna), Bloomspot, Groupon. Em todos eles você encontra serviços e produtos a preços baixos.

Fora tudo isso, Nova York saltou da 8a, em 2009, para a 27a cidade mais cara do mundo! Olha que maravilha! Paris, Londres, São Paulo, Hong Kong, Milão, Tel Aviv. Todas são mais salgadas que a grande maçã. O Rio ficou só duas posições abaixo! Para quem está curioso, a cidade mais cara deixou de ser Tóquio, que agora responde pela vice-liderança. Luanda, capital da Angola, está lá na frente. E não tem Metrocard.

Bolo

Algumas entrevistas são ótimas. Outras não rendem nada. E isso nem sempre depende de você. Às vezes o entrevistado está num mau dia, sem paciência. Recentemente gravamos para o Multishow uma entrevista com os integrantes da banda Cake (clique aqui para ver no site do Multishow). Eu sempre gostei muito deles. Conheci o John na última vez em que foram ao Rio. Ele se apaixonou pelo piso da cozinha, de autoria do artista plástico Francisco Brennand, do Recife, e a gente chegou a combinar o envio do piso para ele, na Califónia. Como bons brasileiros, nunca mandamos.

Mais ou menos uns cinco anos depois desse primeiro encontro, marcamos a entrevista, aqui em Nova York. Chegando lá, John cobrou o envio do piso, falou da ansiedade de voltar ao Brasil e contou novidades. Sempre achei uma temeridade o jornalista ficar “amigo” do entrevistado e, claro, não fiquei amiga do John. Foram só mesmo esses dois encontros. Mas o último foi especial porque me mostrou como esse distanciamento é importante e não atrapalha em nada o ofício do jornalista. Pelo contrário. Foi uma conversa relaxada, em que deu tempo de falar de música, meio ambiente, amigos, Brasil. Eles dividiram suas ansiedades, as dificuldades de manter uma banda por tanto tempo e acho, honestamente, que se estivessem gravando com um amigo, o papo não renderia tanto.

Uma vez Chico comparou o jornalista a um terapeuta. Ambos ficam ali, parados, perguntando e ouvindo as angústias do interlocutor. Já viu terapeuta ficar amigão do paciente? Não funciona muito, né?

Casamento que é um melhor amigo

Sabe aquelas horas em que tudo parece errado? Você tropeça na rua, derrama café no vestido branco e percebe que usou a página mais importante do jornal para forrar o banheirinho da gata? Tenho tantos, mas tantos dias assim que com alguma frequência sinto uma necessidade enorme de não pensar em nada. Pasolini? Truffaut?Bergman? Até Fellini é cabeção demais nessas horas. Quero mesmo ver Meg Ryan e Tom Hanks numa previsível comédia romântica, com aquele final lindo que a gente já imaginava desde o trailer. “O casamento de Muriel” tem tudo isso e, de quebra, uma trilha sonora irresistível. E o melhor: você pode dizer, sem medo, que adora o filme. Não é feito “Sleepless in Seattle”, que vão falar que é coisa de mulherzinha, ou “City of Angels” (vocês perceberam como eu amo a Meg Ryan). Todo mundo gosta e todo mundo gosta de gostar!

José, para onde?

Não é nenhuma história que eu não tenha ouvido. Na verdade, já ouvi centenas parecidas. Sem exagero. Desde que cheguei a Nova York meu trabalho de jornalista se aliou ao de antropóloga na tentativa de entender melhor, ver de perto, a realidade dos imigrantes brasileiros. Os indocumentados sempre chamam a atenção. Primeiro, porque são a maioria. Os cálculos não são oficiais, mas a gente sempre ouve falar que em torno de 80% dos brasileiros que vivem nos Estados Unidos atualmente estão sem visto. Sempre achei que essas pessoas eram extremamente corajosas. Hoje, acho que não mais que isso. São heróis da resistência.

Como seria passar cada diazinho da sua vida pensando que alguém pode te tirar de casa? Te separar da sua família? Ou simplesmente sendo uma pessoa correta e tento que conviver com a sensação terrível de que se está fazendo algo errado? O texto de José Antonio Vargas, jornalista filipino que ganhou um prêmio Pulitzer, na revista do New York Times deste fim de semana é, ainda que familiar, emocionante. Como imaginar que alguém que conquistou tanto possa ser obrigada a viver cada dia como se criminoso fosse?

O relato de Vargas é brutal. Não são as grandes coisas, mas as pequenas privações de cada dia que o fazem mais real e próximo de cada um de nós. Imagine ganhar uma viagem com tudo para para a Suíça e dizer não? Imagina mentir para todos os colegas de trabalho, com medo de ser demitido? Agora, imagine jamais ter um relacionamento mais sério para evitar ter de contar ao outro seus segredos? É assim que milhões de pessoas de carne, osso e alma, como eu você, vivem todos os dias. José Antonio Vargas resolveu falar. Talvez por causa dele o debate sobre o DREAM Act, e tantos outros projetos de lei, volte ao centro do picadeiro.  Tomara.

Depilaram o metrô!

Foi preso hoje, em Nova York, Joseph Patrick Waldo, responsável por muitos dos meus momentos de diversão nas estações de metrô da cidade. Quem mora aqui talvez não conheça o rapaz pelo nome, mas se eu disser o apelido… Waldo é o Moustache Man, alguém que eu imaginei ser um personagem de ficção ou um exército de dez homens empolgadíssimos com a aventura.

Nada disso. É só elezinho mesmo. Waldo rabiscava um estiloso “moustache” no bigode de pessoas expostas em cartazes pela cidade. Muito mais genial que qualquer rabisco. E, devo dizer, mais criativo que muitos artistas.

O rapaz, de 26 anos, foi preso por vandalismo. Mas, fica a pergunta: quais os limites da leviandade e da arte? Será que o que ele faz não é uma piada de bom gosto, à la Baldessari? Para acompanhar a discussão, sugiro o filme “Exit through the gift shop”, que narra a criação do artista de rua Mr Brainwash. Mais uma gracinha do britânico Banksy, que se transformou num golpe milionário. Golpe ou, mais uma vez, arte? O tempo dirá. Ou não.

Lanchinho de patins

Quem nunca viu num filme aquela pista de patinação no gelo em frente ao Rockfeller Center? Quantos romances já começaram ali? Quanto casais se encontraram depois de um tombão cinematográfico no gelo? No verão não dá para a gente brincar de artistas. Gelo nenhum resistiria a este calor de meu deus. Mas como americano não tem nada de bobo, o lugar vira um charmoso bar. As tendas, na foto ao lado, protegem as mesinhas do sol. Tem fila, á claro, mas na falta dos tombos, pode ser divertido.

Soto e o nosso olhar

Poucas coisas são tão mágicas quanto a emoção que uma obra de arte provoca. No caso do meu encontro com a obra de Jesus Rafael Soto, esse sentimento foi uma mistura de arrepio, alegria e tontura. As linhas retas e os arames dançantes de Soto expandiram os limites da minha realidade. Quando saí da exposição, as ruas de Nova York tremulavam, as pessoas ganharam cores. E eu ria. Porque a felicidade de descobrir que o mundo é maior e você é menor do que pensava é impagável.

Queria mostrar aqui o que Soto provoca no nosso olhar.  Como ele mesmo diz, são trabalhos de criação coletiva, entre ele e quem vê. Depende de você, tanto quanto dele, a transformação da arte. Fotos dificilmente conseguem chegar perto do que é uma obra ao vivo. Neste caso, não dá nem pra começar. Por isso fiz um vídeo, que talvez dê uma ideia mais próxima do que acontece na sua mente e no seu coração vendo aquela explosão de informações.

E como era um dia de movimento, resolvemos ficar no tema e, de lá, seguimos para a também bela exposição de Willem de Kooning, na Pace Gallery. No caminho, passamos pelo carrinho de comida Grega que fica na esquina da 51st Street com a Park Ave. Tudo baratinho e feito com carinho pela mãe do Frank, o simpático rapaz que nos atende. Não tem erro. É este carrinho azul, bonitinho, com o nome de Uncle Gussy’s. Para quem tem medo de caminhão (eu adoro), eles tem um restaurante com o mesmo nome em Astoria, aberto desde 1971. Vale conferir.