A região entre a rua 110th e a 116th, principalmente na Fredrick Douglass (como a 8th Ave é chamada no Harlem) está vivendo uma era de renascimento poucas vezes vista. É o que os americanos chamam de gentrification (também existe gentrificação, em português, mas a gente usa raramente), quando populações mais afluentes migram para determinada área. O Harlem está vivendo o fenômeno há cerca de dez anos e agora já é possível encontrar restaurantes badalados em fila.
Para os Harlemites, ou para os menos preguiçosos, que topam subir até aqui, algumas dicas. Na esquina da Fredrick Douglass com a 113th tem o Bier International, um bar aberto, com cervejas incríveis em que é possível combinar o menu com a bebida, seguindo as sugestões do chef. Do outro lado da rua tem um etíope de primeira, o Zoma, onde a comida é sempre boa. Na esquina com a 116th, abriu hoje o Harlem Tavern. Vamos até lá conferir e depois conto aqui, mas o lugar é promissor, com um enorme pátio. E guarde espaço para a sobremesa. Na mesma esquina está uma filial do Levain, o melhor cookie do mundo. Fora da Fredrick Douglass, na Lenox com a 125th está o badalado Red Rooster, que Obama escolheu para iniciar sua campanha à reeleição. Melhor bolo de milho do mundo e comida deliciosa.
Só não me venham chamar a área de SoHa, South Harlem, como virou moda em alguns jornais. Harlemites são extremamente orgulhosos da sua história e cultura. Seja na 110th, na 125th ou na 148th, Harlem é Harlem.

Sempre ouvi falar que Nova York era uma das cidades mais caras do mundo. Pelo visto, as coisas mudaram. Sim, o aluguel aqui continua uma fortuna. Sim, tem restaurantes em que seu estômago, olhos e coração juntos não seriam suficientes para pagar a conta. Mas em que lugar do mundo você anda de ponta a ponta, de metrô, sem precisar de preocupar com a violência ou com o estacionamento, pagando apenas $ 104,00 por mês? Pode andar à vontade, passar o dia roncando num trem meio sujinho, mas com ar condicionado. O valor não muda! Não é à toa que tem até música declarando amores pelo Metrocard…
Sabe aquelas horas em que tudo parece errado? Você tropeça na rua, derrama café no vestido branco e percebe que usou a página mais importante do jornal para forrar o banheirinho da gata? Tenho tantos, mas tantos dias assim que com alguma frequência sinto uma necessidade enorme de não pensar em nada. Pasolini? Truffaut?Bergman? Até Fellini é cabeção demais nessas horas. Quero mesmo ver Meg Ryan e Tom Hanks numa previsível comédia romântica, com aquele final lindo que a gente já imaginava desde o trailer. “O casamento de Muriel” tem tudo isso e, de quebra, uma trilha sonora irresistível. E o melhor: você pode dizer, sem medo, que adora o filme. Não é feito “Sleepless in Seattle”, que vão falar que é coisa de mulherzinha, ou “City of Angels” (vocês perceberam como eu amo a Meg Ryan). Todo mundo gosta e todo mundo gosta de gostar!
Não é nenhuma história que eu não tenha ouvido. Na verdade, já ouvi centenas parecidas. Sem exagero. Desde que cheguei a Nova York meu trabalho de jornalista se aliou ao de antropóloga na tentativa de entender melhor, ver de perto, a realidade dos imigrantes brasileiros. Os indocumentados sempre chamam a atenção. Primeiro, porque são a maioria. Os cálculos não são oficiais, mas a gente sempre ouve falar que em torno de 80% dos brasileiros que vivem nos Estados Unidos atualmente estão sem visto. Sempre achei que essas pessoas eram extremamente corajosas. Hoje, acho que não mais que isso. São heróis da resistência.


