Era abril de 2003 e eu trabalhava como repórter da afiliada da Rede Globo em Macaé. A Tv Alto Litoral (hoje chamada Intertv) tinha uma estrutura pequena e, se alguma coisa grave acontecesse na área de cobertura, tínhamos que nos deslocar. Foi assim quando houve o vazamento de uma indústria de papel contaminou rios em Campos dos Goytacazes, quando faltou água na mesma cidade, e quando a temperatura ficou alta demais em Itaperuna. Conheci bem o interior do Rio de Janeiro fazendo reportagens exaustivas na companhia do cinegrafista Marco Aurélio e da produtora Monique Leão. Mas nenhuma cobertura foi tão difícil quanto a daquele abril de 2003.
Era sábado e eu estava tranquila em casa quando me ligaram pedindo que eu corresse à redação de Cabo Frio porque um barco, o Tona Galea, havia afundado. Quinze pessoas morreram. Depois de um dia inteiro de entrevistas, voltei para casa de madrugada, abri o chuveiro de água quente e chorei pela primeira vez por causa de uma cobertura. Era a primeira de muitas. Mas, como esquecer?
Quinze pessoas morreram na tragédia. Quinze pessoas. Outras tantas perderam alguém. Minha primeira lição de jornalismo veio no IML. Vendo famílias destruídas, viúvas desesperadas, pais chorando, tive muita dificuldade de apontar o microfone o pedir declarações. Muitos falaram. Outros, não quiseram. Mas uma mulher me marcou. Ela havia perdido o marido, que, àquele momento, estava desaparecido. Não queria dar entrevistas para ninguém e, justamente por isso, era a mais solicitada. Quando cheguei ela chorava muito e, sei lá por que, veio me pedir guarida. Nos abraçamos por longos minutos e ela desabafou, no meu ombro. No fim da conversa, me senti obrigada a perguntar se ela queria gravar uma entrevista. Ela disse que não e eu não consegui insistir.
No dia seguinte, um grande jornal de S. Paulo estampava as palavras que a aquela moça havia me dito. Tomei uma bronca na redação. Como eles tinham a entrevista e nós não? Eles tinham porque eram um jornal impresso. Bastou a repórter colar em mim, anotar as declarações e pronto. Ela foi esperta. Eu, covarde. Será?
A segunda grande lição dessa cobertura veio de mais uma briga com a editora, que insistia que eu contabilizasse entre os mortos, pessoas que estavam desaparecidas. Todas elas, de fato, foram encontradas sem vida depois. Mas não consegui dizer em rede nacional que aquelas pessoas estavam mortas quando tantas famílias deveriam estar se apegando a fiapinhos de esperança. Não era um detalhe, uma diferença idiomática. Eram pessoas.
Até hoje acho que poderia ter sido mesmo mais incisiva, mas não me arrependo. Sempre dormi tranquila com essas duas decisões. E me lembrei delas porque hoje me deparei com o escândalo envolvendo o jornal News of the World, do Ruppert Murdoch (clique para ler a cobertura da The Economist). Entre as dezenas de imundices que vieram à tona, a que mais me assustou foi a história do “hacker” contratado para apagar mensagens do celular de uma adolescente morta, para poder ouvir novos recados. A família, vendo que as gravações antigas estavam desaparecendo, passou a acreditar que a menina pudesse estar viva. Tudo não teria passado de um mau entendido. Tudo isso em nome de quê? De um emprego que se vai na primeira crise?
Na profissão de jornalista, assim como na de vendedor, médico, dentista, advogado, é preciso lembrar sempre que, do lado de lá, no fim da linha do nosso trabalho, estão pessoas como eu, você e as nossas famílias. Quando a gente se recorda disso, fica sempre mais natural dormir em paz.











