Quando fui ao L’express pela primeira vez, logo que cheguei a Nova York, minha impressão não foi das melhores. O lugar estava lotado e tivemos que nos espremer em uma mesa pequenina. O hamburguer estava bem ok, fazia um frio danado do lado de fora e uma semana depois já nem me lembrava do nome. Só depois me dei conta de que, apesar de ter ido com minha querida cicerone nesta cidade, não era uma época muito bacana. E isso atrapalhou a experiência. Afinal, para comer bem, não basta o chef estar bem. Você também precisa estar de estômago e coração abertos.
Redescobri o L’express por causa do seu “irmão” aqui de Upper Manhattan, o Le Monde. Depois de me apaixonar por esse francesinho charmoso, percebi que sua versão downtown – 24 horas merecia uma segunda chance. Ele fica na 249 Park Ave. South e tem nada menos que cinco cardápios (sobremesa, café da manhã, brunch, jantar e “overnight”, para quem chega depois de meia noite). Tudo aqui é bom. A sopa de cebola ($6,25), a salada de queijo de cabra quente ($9,25), o hamburguer – que é bem mais que ok. As sobremesas também valem a pena, mas bom mesmo é o capuccino. Se o L’express for muito fora de mão para você, o Le Monde fica na Broadway quase na esquina com a 112th Street. Tem uma cardápio super parecido. Mas não é 24 horas. Não se pode ter tudo…
Na semana em que a proposta de lei pela igualdade entre salários de homens e mulheres foi derrubada pelos senadores republicanos, vale a pena dar uma olhadinha no filme “Made in Dagenham“. Ele se passa no fim dos anos 1960, quando mulheres trabalhadoras de uma planta da Ford entraram em greve pedindo algo básico: direitos iguais. O filme não é extraordinário, como não deveria ser uma luta tão essencial. Mas mostra que a questão é antiga e, em muitos países, já teve solução. O Reino Unido tem uma “Equal Pay Bill” desde 1970. Aqui nos Estados Unidos, as mulheres ganham 77% do que recebem os homens. A lei não passou por pura pressão política. Em ano eleitoral, a proposta democrata foi massivamente derrotada pelos republicanos. Esse também vai ser um dos assuntos do Globo Notícia Américas deste domingo.
Depois de dois latinos, chegou a hora de um 24 horas diferente. Se é que se pode chamar de diferente um restaurante que está há 58 anos no mesmo lugar e já é a cara de Nova York. O Veselka serve comida ucraniana de um jeito bem novaiorquino. É despojado, mas caprichado. Fundado em 1954 por um imigrante ucraniano recém-chegado, Wolodymyr Darmochwal (pode ser mais ucraniano que isso?), ele foi se adaptando à nova casa e passou a incluir especialidades americanas no menu. Hoje, no East Village (144 2nd Ave, na esquina com a 9th Street), o cardápio é extenso: salada, hambúrguer e várias opções vegetarianas. É claro que a parte mais bacana é a de especialidades ucranianas, inclusive o bom e velho estrogonofe.
Bom, eu adoraria ficar aqui falando do cardápio, mas o que fazer se o meu favorito mesmo é a sobremesa? Depois de comer o cheesecake daqui, ou melhor, o Farmers Cheesecake Crock with warm berry compote ($8), sua vida jamais será a mesma. Quentinho, crocante, perfeito. A torta de chocolate (que aparece na foto, ao fundo), também é gostosa, mas perto do cheesecake, resta a ela um lugar bem diminuto no quadro. Na nova sede, na Bowery (9 E 1st Street), a gente encontra as mesmas coisas em uma espaço amplo e super charmoso. Para impressionar as visitas. E bem pertinho dali tem o New Museum. Minha recomendação é um passeio completo pela área, parando, ainda, nas várias galerias da região e na parte de cervejas do Whole Foods dali. Imperdível.
No alto, um pé sujo dos brabos, com uma comida deliciosa. Na parte de baixo, um restaurante super fancy, com direito a noites de salsa e filas imensas. Se bem que a fila não é privilégio do andar inferior. A qualquer uma das 24 horas em que este charmoso cantinho fica aberto tem gente por lá. Seja pela badalação, seja pelos deliciosos tacos, vale a pena.
Os meus favoritos são aguacate con queso ($3,50) e acelgas ($3,25). Deu para ver que o preço é justo, né? Para os carnívoros são várias opções. Os corajosos costumam optar pelo de língua. O milho cozinho também é de comer de joelhos. E o melhor, meus amigos, fica aberto o dia inteirinho! O La Esquina fica no Soho, e os donos escolheram este nome porque “O entroncamento” seria feio demais. Fica no 114 Kenmare, bem naquele entroncamento com a Lafayette.
Há cerca de dois meses fiz uma semana especial aqui no blog. Passeamos pelos restaurantes pé sujo de Nova York. Acreditem ou não, foi um sucesso. Pois é, pé sujo também é filho de Deus! E aí fiquei pensando em fazer várias semanas temáticas parecidas, mas o tempo foi passando, o trabalho foi se acumulando e hoje, em plenta terça-feira, tomei vergonha e resolvi começar. Desta vez, vamos de restaurantes 24 horas. E a semana vai até sábado, para compensar a segunda perdida.
Primeiramente é preciso explicar que esse papo de “a cidade que nunca dorme” é a maior balela. Às 11 da noite, todo mundo vai se encolhendo, a garçonete lança a conta na sua mesa mesmo que você ainda sonhe com a sobremesa, e pronto. Por isso, é sempre bom ter na cartola lugares que não fecham nunca. Como dizem os americanos, 24/7, eles estão ali.
Começamos com uma pérola na 14th Street: o Coppelia. É bom porque se você estiver aproveitando a noite no Meatpacking pode ir para lá matar a fominha da madrugada. Se estiver passando pela Union Square, fazendo compras, também. E é melhor ainda porque a comida é deliciosa. Trata-se de um dinner latino. Já viu disso? Pois bem. O Coppelia tem um dos melhores milhos cozidos da cidade. Perde apenas para o Num Pang. Quem acompanha o blog sabe que sou especialista.
Entre os pratos principais, eu fico com a Arepa, por ser a melhor opção vegetariana. Mas esta é completamente diferente daquelas que vemos nos food trucks espalhados pela cidade. Acompanhada de ovos mexidos, vem com guacamole. É demais. Os carnívoros recomendam a Frita Cubana, um sanduíche bem servido, com porco e alcatra. Um último conselho: guarde espaço para o café e a sobremesa. Se quiser provar algo novo, o tres leches de abacaxi é divertido. Mas não tão sensacional quanto o bolo de chocolate com dulce de leche buttercream. Me despeço com a cena clássica de On the Town. Tenho certeza de que se lessem o blog, Frank Sinatra e Gene Kelly aproveitariam melhor suas 24 horas na capital do mundo…
O “Globo Notícia Américas” deste domingo, 3 de junho, vai mostrar o que muda na campanha de Mitt Romney agora que ele alcançou o número de delegados necessário para ser confirmado candidato. Os ataques a Barack Obama já se intensificaram…
Na Argentina, as restrições à compra de dólares afetam o setor imobiliário. Além disso, vamos mostrar o debate sobre a lei dos medicamento genéricos nos Estados Unidos e o fechamento de farmácias suspeitas de vender remédios ilegais no Peru. A entrevista da semana é com o técnico de condicionamento físico Thiago Ferragut, que vai dar dicas para quem quer começar a se exercitar e ficar em forma para o verão.
Não perca! O “Globo Notícia Américas” vai ao ar às 19h (horário de Nova York). Para ver a chamada, clique na foto acima ou aqui.
Parece bobagem, mas ver as vitrines da Macy’s vestidas de Brasil me deixou muito prosa. Lembro que, uns quinze anos atrás, meus primos nascidos nos Estados Unidos foram nos visitar e contaram que, aqui, o senso comum era que vivíamos em uma grande floresta. Hoje, a maioria não apenas sabe quem somos, o que move a nossa economia e que (pasmem!) falamos português, como muitos vão além. Cantam canções inteiras, jogam capoeira, discutem se a demanda por comodities vai continuar tão grande e o que deveríamos fazer para seguir crescendo se a maré chinesa virar.
No lançamento da campanha da Macy’s, que teve o apoio da TV Globo Internacional, eu e o querido Pedro Andrade fizemos a transmissão ao vivo, pela internet. Foram mais de três horas. Clique aqui ou na foto acima para ver o vídeo super resumido, de alguns minutinhos. O suficiente para saber que o Brasil está mesmo na moda.
Teatro, ópera e dança têm um elemento que o cinema e as artes plásticas não possuem: a angústia de serem ao vivo. No meu trabalho, faço um pouco das duas coisas. Os VTs, como a gente chama na televisão, são matérias gravadas. Os vivos, vocês sabem, vão direto do mundo real para os nossos aparelhinhos. Sempre preferi ao vivo, por mais estranho que pareça. Há um fator psicológico decisivo: não levo um peso para casa. Quando gravo, passo dias imaginando como ficará o produto final e a angústia só desaparece quando ele vai ao ar. Só que muitas vezes o vivo não sai como desejado. Você se atrapalha com as palavras, dá branco, o entrevistado fica nervoso, enfim. Tudo pode acontecer. Por isso imagino como é dura a vida da bailarina.
Na semana passada fui ver o American Ballet Theater, como faço toda temporada, desde que cheguei. Se você nunca foi, é mais um programa que recomendo. Tem ingressos tão baratos quanto $20, no Family Circle. Estudante paga $25 na orquestra, se não me engano, comprando no mesmo dia. É bem mais em conta do que as super produções da companhia podem sugerir. Pois bem, na última semana fui ver La Bayadère, com o Marcelo Gomes. Já estava me desmanchando em orgulho quando, de repente, pluft! Uma bailarina se estabaca com tudo. Cai de queixo no chão. Foram segundos. Mas como duraram. Só de pensar no “ohhhh” da plateia ainda tenho calafrios. Imaginei a moça chorando no travesseiro, indo para casa sozinha, de metrô, e sendo abordada por estranhos que perguntavam o motivo dos olhos inchados. Imaginei a mãe, tentando consolar a filhota de longe, pelo telefone (sim, porque a minha bailarina mora longe, tem uma família humilde e tinha colocado todas as fichas naquele balé, daquela noite). Como é dramático o ao vivo! Meu balé terminou como uma ópera.
Alguns dias depois, a convite de uma amiga que entende minhas obsessões, voltei para ver o mesmo balé. Nenhum tombo, tudo perfeito. Mas sem os saltos do Marcelo Gomes e sem a humanidade da bailarina, foi uma outra experiência. Em suas imperfeições, aquele foi um dos mais belos balés a que assisti. Aprender que, sim, Chico Buarque, a bailarina tem catapora, piolho e provavelmente um irmão meio zarolho, foi libertador. Com a novidade, descobri, também, a beleza de errar ao vivo, em praça pública, na frente de todo mundo. Na hora, a dor parece bem maior. Mas hoje já imagino a minha bailarina saindo chateada, mas sendo confortada por um namorado lindo, ganhando flores das amigas e esquecendo uma semana depois. Ou não esquecendo, mas aprendendo com o tombo que ela deve pôr um pouco menos de energia naquele salto.
Hoje vou ver The Bright Stream com o Marcelo Gomes e a Paloma Herrera. Mais um presentão da minha amiga compreensiva (e tão obcecada quanto eu). E vou leve feito a Julie Kent. Sabendo que, se alguém cair, vai se levantar e a vida continua. Afinal, reparando bem todo mundo tem pereba, marca de vacina, unha encardida, dente com comida…
Existem muitas razões para visitar o Museum of the City of New York. Primeiro, ele é um dos poucos que abrem sete dias por semana, de 10am às 6pm. Segundo, ele fica na Museum Mile, então quando estiver de passagem por outro museu, é fácil dar um pulinho lá. Terceiro, a lojinha tem ótimas ideias de presentes para apaixonados por essa cidade.
Agora, a razão mais importante: as exposições. Tem aquelas que relatam a história de Nova York, como “The greatest Grid” (até 15 de julho), sobre o sistema de grid das ruas da cidade, ou “Activist New York”, que mostra vários momentos de mobilização social na capital do mundo. Ou até a divertida exposição sobre o Apollo Theater, que vi no ano passado.
O lugar também reúne temporárias de artistas plásticos surpreendentes. Neste momento, dois estão em cartaz. Stone Roberts traz suas pinturas hiperrealistas de paisagens que a gente vê todo o dia, nessas ruas quentes e coloridas. O homem sentado na escada, a feira-livre, os apressados da Grand Central (na foto ao lado). Estão todos lá. Mas quem me encheu os olhos e roubou boa parte da minha tarde no museu foi Neil Goldberg, com sua “Stories the City Tells Itself” (foto lá do alto). O cara é um gênio obsessivo, que se encanta pelas repetições de cenas urbanas. O comerciante abrindo a loja, o bufê de saladas, o metrô que você perdeu por alguns segundos. Momentos de dor e rotina são repetidos à exaustão, como em uma tentativa de lembrar que, mesmo entre 8 milhões de pessoas, uma essência comum permanece. Corra, porque a exposição só fica até dia 19 de junho!
Um dos artigos mais polêmicos que já li sobre a questão do imigrante (não apenas nos Estados Unidos, mas em todo o mundo) foi publicado na última sexta no The New York Times. Jacqueline Stevens, professora de ciência política na Northwestern University propõe não apenas a abolição da exigência do local de nascimento, mas a abertura irrestrita das fronteiras entre países. Para ela, o que faz o cidadão é a política do país, não o lugar de onde ele vem.
O argumento é questionado tanto pela direita, por motivos óbvios, quanto por esquerdistas que acreditam que uma medida do tipo causaria uma redução global de salários, além do esgotamento dos postos de trabalho em países mais ricos. Citando, inclusive, o brasileiro Eduardo Saverin, do Facebook, que recentemente renunciou à cidadania americana, Stevens é categórica: “precisamos de governos, não de Estados”.
É difícil chegar a uma conclusão apenas com a leitura do artigo (talvez o livro de Stevens, “States Without Nations: Citizenship for Mortals” seja um bom começo), mas é sempre bom ver opiniões instigantes sobre o assunto. Qual é a sua?