O primeiro furto a gente nunca esquece

Ontem à noite fomos jantar com um amigo querido. Voltando para casa, na esquina na 110th com a 8th Ave, em frente a uma lanchonete Subway, uma estação de metrô e um posto de gasolina, vi um roubo em Nova York. Já passava da 10 da noite, mas o lugar estava movimentado e várias pessoas viram a cena.

Quando cheguei, achei que o garoto, com um alicate maior que a roda da bicicleta, estivesse quebrando o próprio cadeado para levar a própria bicicleta. Foi super rápido, mas imaginei que ele tivesse saído à pressas, perdido a chave, sei lá. Até eu perceber que o amigo que o acompanhava olhava para os lados, em alerta. Peguei o telefone para chamar a polícia, ainda incerta sobre a propriedade da magrela. Em menos de dez segundos, o grupo arrancou dali, cada um na sua bicicleta, em direção ao oeste, pela mesma 110th.

Fiquei paralisada. Não consegui ligar para a polícia, chamar ajuda, fazer escândalo. Ficamos todos parados, sem entender direito o que havia acontecido. É claro que já havia visto outros crimes na minha vida. Eu mesma fui assaltada seis vezes. Mas nunca tinha testemunhado isso aqui em Nova York.

Sei que esse tipo de roubo é comum na cidade. Já foi até tema de ensaio no Sartorialist. Nova York é a campeã nacional no delito. Nos Estados Unidos, mais de 300 mil são furtadas todo ano, segundo o FBI. Reconheço que, de certa forma, tenho que seguir feliz por viver num lugar tão seguro, em que é muito, muito raro, haver um assalto à mão armada. Mas esse tipo de cena sempre é impactante. Depois, tudo parecia sombrio, perigoso, todo mundo na rua era suspeito. Fui dormir sem saber se poderia ter feito algo mais para salvar a bicicleta.

A poesia da vida

Jill Bolte Taylor era uma pacata cientista, especializada no cérebro humano. Até que um dia, ela pode vivenciar tudo o que estudava. Sofreu um derrame e descobriu muito mais que ciência. Aprendeu a viver.

Lembrei muito do Carlos Drummond de Andrade vendo esse vídeo.

“Se procurar bem você acaba encontrando.

Não a explicação (duvidosa) da vida,

Mas a poesia (inexplicável) da vida.”

Andrada e o orgulho de ser brasileira

Se tem uma coisa que invejo nos americanos é o amor pela própria história. Nós, brasileiros, temos uma triste mania de falar mal de nós mesmos, principalmente dos bem-sucedidos. Não sei de onde isso vem, mas sei o que isso gera: um esquecimento geracional dos nossos valores, da nossa cultura, de nós mesmos. É um círculo vicioso: temos a auto-estima no chão, por isso falamos mal dos outros, por isso deixamos de aprender com as conquistas dos outros, por isso não nos engrandecemos enquanto povo, por isso temos a auto-estima no chão.

Talvez eu esteja exagerando, e se você discordar, por favor, comente! Me convença do contrário. Mas pensei muito nisso quando, viajando pelos Estados Unidos, me deparei com pelo menos três grandes museus do rock (vocês já foram a algum bom museu do samba?), exposições celebrando músicos, artistas, personalidades e, claro, o orgulho deles de serem americanos. Por que não somos assim? Pelo menos um pouquinho? Por que não aplaudimos mais os nossos?

Quando fomos à Biblioteca do Congresso, em Washington, nos deparamos com uma fila de pessoas para ver a cópia que eles têm da Bíblia de Gutenberg. Meses depois, em Chicago, tive o prazer de conhecer o escritor João Almino. Ele me contou que, no Brasil, temos três Bílbias de Gutenberg. Três! Onde elas estão? Por que não incensamos esses bens?

E tudo isso eu resolvi dizer hoje porque, caminhando pelo Bryant Park, me deparei com a estátua de José Bonifácio de Andrada. Será que existe alguma estátua dele no Brasil? Os americanos homenagearam o mentor da nossa independência, político, cientista, geólogo com uma obra enorme num dos pontos mais badalados de Nova York. E eu só fui saber mais sobre essa figura por que eles me despertaram o interesse. Quem foi Andrada?  Por que eu nunca soube ao certo?

Hoje descobri que ele foi uma espécie de Thomas Jefferson brasileiro. Conhecedor de diversas ciências, o intelectual disse, entre outras coisas, que “no Brasil há um luxo grosseiro a par de infinitas privações de coisas necessárias”. Uma dessas necessidades, certamente, é a memória.

 

A última dança

José Manuel Carreño e Julie Kent estavam no palco quando vi Giselle, cerca de um mês atrás. Adoro balé desde sempre e, onde quer que eu esteja, tento acompanhar o que está acontecendo no mundo da dança. Mas poucas vezes senti tamanha emoção em um espetáculo. Descobri o óbvio: uma coreografia executada pelos melhores bailarinos vira obra-prima.

Julie Kent é considerada a melhor Giselle do mundo. José Manuel Carreño faz os outros bailarinos parecerem gorduchos, tamanha a leveza do cubano. Os dois juntos são imbatíveis. Nesta temporada, ainda mais, por dois motivos. Kent completa 25 anos na American Ballet Theatre. Carreño de despede da companhia, se aposentando ao fim da temporada.

Tive a sorte de testemunhar a última Giselle dele. E, sábado, o último Swan Lake.

Foi sem querer. Comprei os ingressos meses atrás. Escolhi esta performance porque o príncipe Siegfried seria interpretado pelo brasileiro Marcelo Gomes. Mas quem estava lá era Carreño. E eu nem me zanguei com a mudança.

Acho o terceiro ato de Swan Lake o mais bonito do balé. Sei que é um clichezão, mas o pas de deux do Black Swan é mesmo uma das coisas mais fantásticas que se pode testemunhar num palco. Com Carreño e Kent, é de arrancar lágrimas. A matéria no The New York Times sobre aquela que seria a performance de despedida de Carreño conta um pouco dessa parceria e da bela trajetória dele.

Não consegui achar no Youtube uma performance dos dois, então, minha singela homenagem a Carreño fica com a apresentação dele ao lado de Susan Jaffe, também belíssima. Carreño, muito obrigada pelas maravilhas que você nos ofereceu.

Parabéns, seu Bernando

Cerca de um ano e meio atrás (gente, como passa rápido) estávamos em Mesa, no Arizona, à procura de um brasileiro de 108 anos. Ele viu o Titanic afundar, testemunhou duas guerras mundiais e, nossa, quantas Copas do Mundo! Como eu, seu Bernando nasceu no Espírito Santo. Foi trazido para os Estados Unidos ainda criança. Com medo de que o filho fosse vítima de bullying (naquela época, certamente isso não existia, mas, vá lá), o pai dele preferiu não permitir que ele falasse português.

Seu Bernando nos disse que não era tarde e iria aprender a língua. Além de um Planeta Brasil, fizemos uma reportagem com ele para o Jornal Hoje. O vídeo não está mais lá, mas ainda restou o texto. Seu Bernando é tão saudável, tão inteiro, que virou consultor de nutrição. É cheio de manias e, devo confessar, não é o ser humano mais bem humorado que conheci. Longe disso. Mas é preciso dar a mão à palmatória. Seu Bernando segue gatão. E hoje, Dinorah, que também conhecemos no Arizona, escreveu aqui no site dizendo que ele vai completar 110 anos este ano. Deixo aqui meus parabéns!

Frida é fashion

“O vestuário é o mais eloquente de todos os estilos…

forma parte do próprio homem,

é o texto de sua existência, sua chave hieroglífica.”

Honoré de Balzac

Uma amiga querida me trouxe do México um presentão: o livro “El Ropero de Frida”. Nós duas temos em comum a paixão pela arte e ela pensou que o livro seria inspirador, mas não pelas pinturas de Frida. Pelos modelitos.

Adoro costurar. Boa parte do meu armário saiu da minha cabeça e da minha singela e guerreira máquina Singer. Passo horas escolhendo estampas. Até para decidir qual o zíper ideal eu demoro um tempão. Mas o prazer maior é estender o tecido no chão da sala, rabiscá-lo e ver nascer uma nova peça.

Não vou ficar aqui falando de linhas, agulhas e modelagens porque este é um blog sobre Nova York e sobre cultura. Mas este post tem um pouco de tudo isso. Na cidade mais estilosa do mundo, mas onde o preto segue reinando, as cores de Frida Kahlo iluminaram o dia. Frida levava para o armário a vibração de suas pinturas. Devo confessar que ela está longe de ser minha pintora favorita, mas as belas saias rendadas, as blusas de corte quadrado e os vários cintos de tecido me fizeram até olhar para a moça com mais carinho. O livro é uma bela pedida para quem gosta de moda, ou simplesmente, de arte.

    

Deus em forma de cookie

Este é um post rapidinho, só para dar uma dica para quem vive em Nova York ou está passeando por aqui. Mesmo que você pense que não gosta muito de cookies ou não “ligue muito” para doce (como eu me irrito quando dizem isso), o cookie da Levain Bakery é imperdível. Mais que um cookie, é uma mistura de petit gateau com biscoito e brigadeiro. Tudo regado a muita manteiga e muitas, muitas calorias. Mas vale cada grama. A loja mais famosa é na 167 W 74th (quase na esquina com a Amsterdam). Mas tem uma loja nova e bem charmosa na Fredrick Douglass (nome da 8th Ave no Harlem), entre a 116th e a 117th. Em Nova York, dá até para deixar a Estátua da Liberdade para a próxima. Mas o cookie do Levain, nem pensar!

James Franco não falha

Acabei querendo falar de tantas coisas aqui no blog (o prateconfundir estava meio abandonado e voltar a escrever tem me dado uma alegria imensa) que esqueci do post sobre a entrevista com o James Franco. O texto ainda não foi publicado, por isso não vou contar nadinha do que ele falou. Em vez disso, vou dizer como a conversa com o protagonista de “127 Hours” mudou meus dias.

Digo dias porque desde que falei com ele entrei numa montanha-russa de emoções. Às vezes achava que tinha nas mãos a matéria do ano, às vezes, que não tinha nada.  O tempo para a entrevista era limitado, por isso a cada “hummmm” ou “deixa eu pensar um pouco sobre isso” do astro do cinema, eu me desesperava. Poxa, o tempo que ele gastou pensando em cada resposta poderia ter sido usado em mais uma pergunta, certo? Sim, mas certamente as respostas não teriam sido tão reveladoras. Terminei a conversa com a sensação de que o papo não tinha rendido nada. Parecia que eu havia passado todo aquele período numa mesa de bar, com um amigo próximo, debatendo literatura, vida, morte, o tudo e o nada. E isso não dá matéria.

Só que, quando fui ouvir a conversa, me dei conta de que havia feito uma das melhores entrevistas da minha vida, justamente por ter permitido que Franco tivesse o tempo que queria. Quando pensava, ele tentava, sinceramente, chegar a alguma conclusão sobre o que havia sido perguntado, e não apenas jogar uma resposta qualquer para se livrar daquele momento. Artista plástico, escritor, diretor de filmes, PhD em literatura em Yale, professor de cinema da NYU, bonito, talentoso, Franco tinha muito a dizer. E como é bom poder ouvir!

O jornalista Francisco Quinteiro Pires volta e meia brinca que devemos fugir do complexo de Sherlock Holmes. É que o velho detetive só fazia perguntas cuja resposta conhecia. E isso acaba acontecendo com frequência na nossa profissão. Quando a gente consegue estar genuinamente interessado no que nosso interlocutor tem a dizer, a mágica acontece. E prometo que, assim que a entrevista for publicada, ela estará aqui, na íntegra, para vocês se divertirem com as palavras do maluco mais esperto do cinema.

A foto acima é de um lápis, criado pela Greenwich Letterpress. Reparem no amarelo. Quem me mandou foi a Danielle Levkovits. Demais.

A mãe do homem

Foi publicada ontem, no Caderno Ela, do jornal O Globo, uma matéria minha sobre a biografia de Stanley Ann Durham, a mãe de Barack Obama. Já havia postado aqui no site sobre o assunto. Fiquei encantada com o livro. Nos Estados Unidos ele saiu sob o título “A singular woman”, há poucas semanas. Vale muito a pena descobrir, pela história dela, um pouco da trajetória do presidente americano. Mas o livro vale ainda mais a pena por revelar uma mulher que a gente às vezes nem lembra que existiu. Alguém que, em plena década de 60, quando mais da metade dos estados americanos ainda proibia o casamento interracial, casou e teve um filho com um queniano. Alguém que se mudou para a Indonésia com o filho e se permitiu se apaixonar por um novo país. Enfim, uma história linda. Um gostinho vai na matéria, aí do lado. E bom domingo a todos!

Nowhere Boy

Este é um post sobre o filme “Nowhere Boy”. Só que antes de falar dele, preciso explicar como o DVD veio parar nas minhas mãos. Em Nova York existe uma instituição linda, em que a gente esbarra a cada esquina, e que põe abaixo qualquer desculpa para não ler.

Quantas vezes você já ouviu a ladainha “livro é muito caro”. No Brasil, é mesmo. E além disso, é dificílimo encontrar bibliotecas. Pois a NY Public Library cobre todo o território novaiorquino. E se você é preguiçoso ao ponto de não poder caminhar duas quadras (deve ter uma a menos de duas quadras da sua casa, se você vive em Manhattan), basta entrar no site e pedir para mandarem qualquer livro que você queira e ir buscá-lo na biblioteca mais próxima, quando puder. Ah! E é permitido pegar o livro em qualquer biblioteca da cidade e devolver em qualquer outra. Uma dádiva.

Para completar (agora entra “Nowhere Boy”) eles têm uma belíssima coleção de DVDs. Você pode levar para casa até dez de uma vez (para livros, pasmem, o limite é 50). Nunca havia alugado DVDs lá porque o Netflix já é demais para o meu coração. Mas na minha última passagem pela Library, “Nowhere Boy” ululava na minha frente. Trouxe ele e mais dois.

Sim, eu sou uma beatlemaníaca de carteirina. Sei todas as letras, histórias e vi a coleção do Anthology umas oito vezes. Mas é sempre bom renovar suas paixões. E foi isso que o filme me proporcionou. Retrata um Lennon antes de ser Lennon. Um adolescente rebelde, cheio de dilemas em relação à mãe, Julia (minha irmã se chama Julia em homenagem a ela, para vocês verem que a beatlemania é mal de família), e à tia, Mimi. O filme nos faz querer ouvir mais Beatles (não há nenhuma música da dupla Lennon e McCartney no filme, a não ser o acorde inicial de A Hard Day’s Night, logo na primeira cena) e conhecer ainda melhor a história da melhor banda que já existiu e que jamais existirá. Para quem não ama o quarteto tanto assim, o filme também vale a pena. É uma linda história.

Para colorir o dia, a versão de “Nowhere Man” do filme “Yellow Submarine”