Mistérios de Lisboa

Já sei que este será um dos posts menos populares da história dos posts. Mas tudo bem. Preciso falar sobre “Mistérios de Lisboa“, um dos meus novos filmes preferidos de todos os tempos. Posso dizer que ele teve em mim o mesmo efeito dos livros de Orhan Pamuk. Me despertou uma renovada paixão pela arte. Vejo filmes como se não houvesse amanhã, um atrás do outro, mas alguns dos mais recentes vinham me desanimando um bocado. Filmes de gente que eu adoro, como o último da Miranda July (The Future) ou o último do Herzog, que aliás, vi anteontem (Into the Abyss) são, no máximo, em um dia de extremo bom humor, regulares. Mistérios de Lisboa, não. É um filmaço.

A adaptação da obra de mesmo nome de Camilo Castelo Branco tem 4h26. Isso mesmo. Quase uma ópera de Wagner. Tem que querer muito ver. Eu sou do time que acha que, desde O Poderoso Chefão, nenhum filme deveria ter tido mais de 3 horas. Mas essa obra-prima de Raul Ruiz vale cada respiro, cada plano alongado. Originalmente feito para a televisão, era uma série de 6 capítulos de uma hora cada (seria obsessivo demais ver agora a série? hummmm…). É até difícil resumir a história. São tantos personagens com histórias fascinantes, que qualquer tentavia seria injusta. Mas como jornalistas são injustos e irresponsáveis por definição, vamos lá.

A história gira em torno de João (ou Pedro da Silva), que tenta descobrir quem são seus pais. A mãe é um condessa que teve um grande amor (que não é o conde). O pai foi perseguido e… Pronto. Já estou estragando a história. Bom, posso dizer que tem padre, monge, filhos bastardos, a realeza toda, bandidos, mocinhas, freiras e por aí vai. Claro, tudo regado a mistérios e àquele sotaque delicioso, como diz o nome. O cenário é esplendoroso, a direção impecável, os diálogos de chorar. E tcharam: instantâneo no Netflix.

Flushing – 背面

As últimas semanas foram malucas. O prazo de entrega da tese era a última sexta-feira, então fiquei por conta. Mal consegui me mexer. Para compensar o longo e tenebroso inverno, passei o fim de semana realizando desejos antigos. Um deles era conhecer o Flushing. A região foi fundada em 1645, como o primeiro assentamento holandês no Queens. Hoje é casa de milhares de chineses. Chega a dar frio na barriga. Nunca havia sentido isso em Nova York, mas em Flushing, ao sair do metrô, a sensação de que você chegou a outro país é imediata. Que susto.

Para chegar até lá é preciso pegar o metrô 7 até a última parada, Main Street – Flushing. Demora pouco mais de uma hora, mas vale a pena. A melhor pedida é ir parando de restaurante em restaurante, comendo um pouquinho em cada um, para poder provar de tudo. O Golden Mall (que o Anthony Boudain visita em um No Reservations) e o New Mall são boas pedidas para ver um pouquinho de tudo. Mas imperdível mesmo é o Nan Xiang Xiao Long Bao, uma casa de dumplings onde tudo é delicioso. Prepare-se para enfrentar uma fila de respeito, mas vá. E para fechar o dia, um café em uma das padarias chinesas da região. Fomos à Iris tea & Bakery, que não é lá muito chinesa, mas oferece quitutes do mundo todo, como o pão de chocolate mexicano.

Calma que o dia não acabou! Aliás, um dia é muito, muito pouco para conhecer a imensa vizinhança. O Flushing parece outro país, mas é Nova York. Assim sendo, não poderia se limitar a um povo só. Andando mais um bocadinho, a gente chega à área indiana do bairro. É possível visitar o Ganesh Temple, um templo aberto para visitantes. Provavelmente o mais próximo que se pode chegar da Índia fora de lá. Dá até para fazer oferendas (pedaços de côco estão entre as preferidas, por isso tem até espaço para quebrar côco do lado de fora!) e acompanhar as cerimônias. No basement, fica o segredo mais bem guardado da área: uma cantina enorme, servindo, por $4, pratos vegetarianos típicos. E só há indianos no local. Aliás, quem gosta de comer já deve ter sacado que a melhor estratégia para ir nos restaurantes étnicos é ver se a maioria dos clientes é do país de origem. Mexicano cheio de americano não dá. Assim como chinês cheio de ocidental costuma ser furada.

Posso dizer que um dia inteiro não deu nem para o começo da aventura. Precisamos voltar lá muitas e muitas vezes. Mas já demos o pontapé inicial! O próximo plano é aprender mandarim para saber o que estou comendo… Se bem que o lugar é tão complexo que nem isso serviria. Tem muito comerciante que só fala cantonês… 背面!!

Ao mestre, com carinho

Nos conhecemos quando eu tinha 18 anos e fui trabalhar como assistente de pesquisa dele, no Museu Nacional. Eu era uma capixaba recém-chegada ao Rio, estudante de jornalismo que não sabia nem o que era antropologia. Ganhava um salário e um bônus: Gilberto e Karina Kushnir dispunham do tempo deles, que valia muito mais que o meu, para replanejar o meu currículo acadêmico. O que mais uma jornalista deveria ler além do que os professores da ECO pediam? Mais Habermas? Mais Adorno? Mais Benjamin? Os dois não apenas recomendavam como depois “tomavam” a lição, para saber o que eu havia e não havia compreendido. Entre uma aula e outra, o maior aprendizado foi a generosidade.

Gilberto também me ensinou que moças devem andar do lado de dentro da calçada, protegidas pelo cavalheiro. E que lembrar o nome do autor é muito mais importante que o do livro. E que tudo, tudo mesmo, pode ser objeto de estudo. E que se olharmos bem, um assunto que parece pequenino, fica maior que o universo. E que jornalismo, antropologia, história não são ciências separadas, mas dedos de uma só mão: o ser humano. E que soldadinhos de chumbo guardam histórias. E que o teto das salas de aula do Museu Nacional caiu só uma vez, muito tempo atrás. E que Giralda havia sido campeã de vôlei. E que ele era um esgrimista para Errol Flynn nenhum botar defeito. E que se ele ficava zangado, talvez fosse o caso de esperar uns três dias para o coração dele se encher de saudade e tudo acabar em pizza. Na Capricciosa, de preferência.

Entre blagues e citações (com direito ao número da página e tudo), Gilberto plantou em mim a paixão pelo estudo. Passei a me interessar pelo mundo acadêmico, fiz um mestrado, outro, publiquei um livro. Mais que isso: por causa dele me tornei quem eu sou hoje. Tem muita gente com quem convivemos ao longo de décadas que não influencia em nada quem nos tornamos. Gilberto ajudou a forjar centenas de orientandos. Lendo as reportagens sobre sua despedida, fiquei intrigada com a frase “não deixa filhos.” Somos centenas deles. Para sempre saudosos. Para sempre agradecidos.

((clique aqui para ler o belíssimo artigo de Karina Kushnir em homenagem a Gilberto Velho))

 

Mais surreal que Buñuel

Eu precisava assistir a um filme para uma aula. Procurei no Netflix e não havia nem registro. Pesquisei no Google e percebi que seria difícil. Era “The Criminal Life of Archibaldo de la Cruz”, longa de Luis Buñuel, de 1955. Resolvi, então, buscar na NY Public Library que, como vocês já viram em outros posts, é uma das alegrias da minha vida. Achei. Só que tinha uma observação: o filme estava off-site.

Tudo bem. Pedi assim mesmo, imaginando que teria de esperar um bocado. No dia seguinte chegou um email do Johny, o livreiro. “O seu filme já foi solicitado, mas você está ciente de que não é um DVD? Vai ter que vir até aqui assistir, ok?” Hummmm… Em nome da Santa dos Jornalistas (ou curiosos), resolvi topar.

Ontem fui até a NY Public Library especializada em Performing Arts, que fica no Lincoln Center. Cheguei lá e Johny já me esperava, com os três rolos de 16mm que você vê na foto ao lado. Sim, amigos e amigas. O que me aguardava, de graça, com hora marcada, era uma sessão privé de cinema, em uma sala fofa, com um projetista particular. E vale o toque: o espaço é grande, portanto professores ou grupos maiores podem avisar e assitir juntos. Como disse uma amiga minha é uma ótima ideia para um date! Já pensou pedir o filme predileto dela/ dele, que já está fora de catálogo, e fazer uma surpresa dessas. Oh-la-la!

Que emoção assistir a um filme como antigamente! Tendo que chamar Johny a cada meia hora para trocar os rolos! Meu amor por esta cidade aumentou ainda mais vendo que o dinheiro dos impostos é tão bem investido em cultura, saber, memória. Tudo ali, à disposição de qualquer um. Basta descobrir o que a cidade tem a oferecer. Mais uma vez, para os que dizem que Nova York é cara, ela se apresenta com uma série de alternativas que a tornam única. Fiz questão de tirar fotos, de tão embasbacada que fiquei. E para vocês não dizerem que eu sou suspeita, dada minha paixão incondicional pela cidade.

Para fazer parte da NY Public Library, basta procurar uma delas com um documento de identidade e um comprovante de residência. E mesmo que a unidade mais perto da sua casa não seja nenhuma Brastemp, é só entrar no site, requisitar o livro/ filme/ cd, e eles levam até a unidade que você quiser. De graça. Juro.

Comédia de pé: ame-a ou deixe-a?

Demorei para me render aos encantos da standup comedy. Lembro bem de, quando criança, ver programas americanos e não entender de onde vinha a graça. Achava tudo bobo demais. Ainda não sou super fã mas, pouco a pouco, vou me acostumando e descobrindo os meus favoritos.

Ajudou muito a reportagem que fiz sobre mulheres na standup comedy para o Caderno Ela, do jornal O Globo (clique na foto ao lado ou aqui para ver). Foi a partir dela que conheci o UCB (Upright Citizens Brigade) Theatre, uma casa pequena em Nova York, com uma programação extensa e um preço mínimo. A entrada costuma ser $5,00. Catie Lazarus, que entrevistei para a reportagem, está sempre lá. Tina Fey menciona o lugar várias vezes em seu livro. É uma boa pedida para quem quer se aventurar sem perder muito dinheiro. Aí, se gostar você volta. Caso contrário, não sai danado da vida, já que o investimento foi baixo.

Mas, de volta aos favoritos, tenho visto vários vídeos do Louis CK. Tem alguns instantâneos no Netflix. Ele faz um monte de piadas preconceituosas, já aviso de antemão. Mas também tem números sobre a vida de casado, a criação dos filhos, coisas do dia-a-dia. Vale a pena conferir.

 

Happy Subway Easter!

A melhor coisa de viver em Nova York é ter o mundo inteiro no espaço de uma ilha. Hoje, domingo de páscoa, bem que pensei em ir a uma das igrejas da vizinhança. Não consegui, mas vi as ruas cheias de gente saindo delas. Não é que à noite, voltando para casa de metrô, a igreja veio até nós? Pelo menos o coral do Harlem estava lá. Ninguém pediu dinheiro, nada. Era só mesmo para celebrar. Viva NY. Boa páscoa a todos!

 

Boa hora para o Guggenheim

O Guggenheim é um museu especial porque, ao contrário dos grandes museus de Nova York, não é assim tão grande. É possível fazer uma visita bem completa e tranquila em apenas um dia. Melhor ainda quando as exposições temporárias valem a pena. Desta vez vi duas ótimas.

John Chamberlain: Choices traz um panorama da carreira do artista, morto em dezembro do ano passado. Eu vi uma bela exposição dele na Gagosian, há mais ou menos um ano, mas a do Guggenheim é diferente porque reune obras de várias fases. Vemos Chamberlain minimalista, pop, expressionista, escultor, pintor, louco. Apesar da voz irritante da curadora, é bacana ouvir o audioguide, gratuito, que explica em detalhes a caminhada do mestre da transformação de automóveis em arte.

Além dessa, a exposição sobre a obra de Francesca Woodman é de encher os olhos. Muito se fala sobre a fotógrafa que se suicidou aos 22 anos, mas na reunião de suas obras descobre-se que há muito mais a se falar dela, além da morte trágica. Apesar de breve, a carreira de Woodman é sólida, baseada em auto-retratos (curadores juram que qualquer semelhança com Cindy Sherman no Moma é mera coincidência) de uma crueza e cruedade gritantes.

Chamberlain fica até 13 de maio; Woodman até 13 de junho.

Hipsters em Nova York

Se você já foi a Williamsburg, no Brooklyn, ou caminhou pelas ruas do Soho, certamente esbarrou em um deles. Os hipsters são figura constante nessas áreas de Nova York. Considerados a tribo mais bem sucedida das últimas décadas (até porque eles já duram duas décadas), eles são uma espécie de mistura de hippie e yuppie com um tino empresarial fortíssimo. Inspiraram recentes estudos acadêmicos e a série Portlandia.

Esta semana a revista Carta Capital traz uma reportagem de Francisco Quinteiro Pires sobre a tribo. Eu assino as fotos. Para ler, clique aqui.

Globo Notícia Américas – 01/04

O “Globo Notícia Américas” deste domingo, 1º de abril, mostra como as discussões sobre a lei da reforma da saúde podem afetar a vida de quem mora nos Estados Unidos. O programa traz, ainda, a queda do preço de casas no país pelo quinto mês consecutivo e as investigações sobre a morte de uma iraquiana na Califórnia, que pode ter sido um crime de ódio. Nossa entrevistada esta semana é Bela Gil, blogueira especialista em culinária saudável.

Não perca! O “Globo Notícia Américas” vai ao ar às 19h30 (horário de Nova York). Para ver a chamada clique na foto acima ou aqui!

 

Trayvon Martin e o radicalismo

A morte de Trayvon Martin trouxe uma série de questionamentos e tornou claras as contradições deste país. Os americanos têm um presidente negro (“Trayvon poderia ser meu filho”, disse Obama), mas ainda digladiam com um racismo tão instrínseco que há quem alegue se sentir ameaçado por alguém desarmado, com uma garrafa de chá gelado e um pacotinho de skittles na mão, somente porque esse alguém tem a pele escura. E policiais aceitam a desculpa, mesmo que seja completamente inverossímel uma pessoa que teme pela própria vida perseguir o seu possível algoz.

Por trás de tudo isso está uma lei esquisita, a Stand Your Ground law, que permite que você atire em alguém quando se sentir ameaçado e fique imune à prisão. Algo como uma legítima defesa que de legítima não tem nada. Na coluna de hoje de Paul Krugman, no New York Times, ele sugere que quem está por trás disso é uma organização de extrema direita chamada American Legislative Exchange Council. A ALEC é discreta, mas extremamente influente. Teria escrito e conseguido a aprovação de mais de 50 projetos de lei na Virgínia. Muitos que promovem a exclusão étnica e racial, ameaçam o meio ambiente e privatizam instituições fundamentais para a sociedade, como colégios públicos bem sucedidos.

O grupo se mune do mesmo discurso de sempre: quanto menor o Estado, melhor e quanto mais livre o mercado, melhor. É bom ficar de olho. Nem todas as instituições radicais americanas gostam tanto de holofotes como a National Rifle Association. Muitas agem quietinhas, investindo em lobby, e chegam bem mais longe.